Arthur de Faria & Seu Conjunto

Sempre começa com uma turma de adolescentes. Nesse caso, numa cidade da Grande Porto Alegre, quase interior, chamada Gravataí. Em 1982 Arthur de Faria tinha 13 anos, era obcecado por mineiros em geral e Milton Nascimento em particular. Tinha aprendido a tocar violão há menos de um ano e já saiu compondo. Marcão Acosta tava com 15, era fã do Black Sabbath e tocava percussão (logo depois, violão e guitarra). Em comum, o gosto pelo Sabbath, o Pink Floyd e as então chamadas “vanguardas paulistas”: Arrigo Barnabé, Premê, Itamar Assumpção, Grupo Rumo. E também por alguns nomes da cena urbana gaúcha: Almôndegas, Nei Lisboa, Vitor Ramil, Musical Saracura, Bebeto Alves.

Gente entrou, gente saiu, mas pelos seis anos seguintes tocaram juntos em vários grupos com nomes ruins: Musical Nascente e Grupo Távola não eram os piores. Muito ensaio, pouco show, como todo mundo que começa. Paralelamente, os primeiros passos de ambos numa atividade que levariam para a vida: música para teatro. São dessa época alguns dos temas que seriam gravados 10 anos depois, no primeiro CD da banda: Tema do Louco e Sur, por exemplo.

E aí as vidas musicais se descruzam. Enquanto Marcão monta a banda instrumental Fissura Jazz Band, Arthur chama uns amigos, os amigos trazem outros amigos e nasce o Bando Barato pra Cachorro, que estrearia o premiado espetáculo Café Nice em 1990. O repertório do show era todo de música brasileira dos anos 30. E dois terços do naipe de sopros eram Sérgio Karam e Julio Rizzo.

Julio era então um jovem trombonista, recém-aprovado no concurso pra tocar na sinfônica de Porto Alegre, a OSPA. Já Karam era um saxofonista cabeção, expert em jazz, e, na época,  programador da rádio FM Cultura. Foram três anos juntos, 89 shows, alguns prêmios e, depois de um tempo, muitas brigas.

1991, Bando Barato pra Cachorro desfeito, o diretor teatral Luciano Alabarse, fã do grupo, juntou uma trupe de músicos e atores para um espetáculo chamado Um Estranho Senhor: Maslíah, que apresentaria a obra do uruguaio multimídia Leo Maslíah ao público gaúcho. E foi Luciano que trouxe um fagotista – também da OSPA, compositor de música contemporânea e de trilhas para teatro e dança – chamado Adolfo Almeida Jr. Já Arthur chamou um baterista que conhecia desde quando gravaram uma fita demo no final dos anos 90. O cara era percussionista recém-entrado na OSPA, com o Julio. Além de baterista e (mais um!) compositor de trilhas: Guenther Andreas.

Deu liga.

E seguiu a liga quando, no ano seguinte, Adolfo não participou da remontagem do espetáculo, mas indicou outro fagotista – mais um recém-concursado da mesma orquestra, multiinstrumentista e compositor de trilhas: Fábio Mentz.

Quando termina a segunda temporada de Um Estranho Sr: Maslíah, Arthur, Guenther e Mentz seguem trabalhando um repertório composto pelo primeiro. Montam então uma superbanda de 11 músicos (onde estava o Trio de Madeiras de Porto Alegre, cujo fagotista era, ora vejam só… o Adolfo). Chegam a gravar um disco e fazer um único show, chamado Arthur de Faria & Camerata. O disco jamais é lançado, e o show quase que teve mais gente no palco que na platéia. Mas serviram de base pros três (Guenther, Arthur e Fábio) saberem o que não queriam.

Em 1995 começa a idéia do Arthur de Faria & Seu Conjunto. Arthur na voz e piano, Guenther na bateria, Fábio no fagote e numa invenção sua: um amontoado de latas chamado latofone, que mais tarde Guenther desenvolveria numa escala cromática e chamaria de… latofone cromático.

O primeiro show era em nome de… Arthur de Faria Trio. Mas logo foi inchando.

O primeiro a ser chamado foi um integrante da última formação do Bando Barato pra Cachorro: Giovanni Berti, um versátil percussionista, virtuose do pandeiro, criado desde criança em rodas de samba e choro com o veterano sambista gaúcho Túlio Piva.

Pra completar o naipe de sopros, os ex-parceiros de Bando Sérgio Karam e Julio Rizzo: voz e piano, sax, trombone, fagote e latofone, bateria, percussão.

Aí chama o… Marcão Acosta, mais metaleiro que nunca, mas também fã da guitarra jazzística de Wes Montgomery. Mas coitado: com isso tudo, é chamado pra tocar muito mais bandolim do que guitarra, pela idéia acústica do som da banda. Mas e baixo? Não tem que ter? Teeeer, não tem. O problema é que nenhum baixista encaixava completamente no espírito meio anárquico meio organizado da banda. Ou eram muito anárquicos, ou muito organizados. Fizeram alguns shows com baixistas diversos, mas não rolava. Afinal, a idéia sempre foi juntar pessoas, não instrumentos.

Já tavam quase decidindo por não ter o instrumento quando Fábio, que fazia também a direção musical da carreira solo de Hique Gomez (do espetáculo Tangos & Tragédias), trouxe o baixista de lá: Clóvis Boca Freire, músico lendário da cena local desde os anos 70.
Fechou a tampa já no primeiro ensaio: tava montado o Arthur de Faria & Seu Conjunto.

Oito criaturas com personalidades fortes e estilos musicais muito definidos. Olhando de fora, incompatíveis. Ao longo do tempo, descobrindo paralelismos e contrapontos. De qualquer forma, não uma banda de uma cabeça e vários instrumentistas. Mas sim oito cabeções/cabeçudos somando suas visões de um mesmo repertório.

O primeiro disco foi gravado nesse mesmo 1995, ao vivo, num teatro vazio, em apenas dois (sim, dois!) canais. Seis noites de muitos takes comandados pelo genial engenheiro de som gaúcho Marcelo Sfoggia. O repertório era metade de canções, metade de temas instrumentais. A banda, em sua primeira formação, soando como se fosse um jazz dos anos 20 projetado para 70 anos mais tarde. O nome do CD, auto-explicativo, iniciava uma série: Música pra Gente Grande.

Produzido, dirigido, mixado e masterizado por Fábio e Arthur, o CD é lançado independente em 96, numa edição especial assinada e carimbada unidade a unidade e teria uma nova edição em 2001 – com outra capa, pelo selo paulista Núcleo Contemporâneo (marcando o início da colaboração da banda com o artista visual Lucas Levitan, que fez desde então todo seu material gráfico).

Já em 96 são uma das atrações da primeira edição do festival Porto Alegre em Montevideo, onde tocam no principal teatro do Uruguai, o Solis, para uma platéia lotada que exige três voltas ao palco. No show, a participação especial do já velho conhecido Leo Maslíah.

Em 97, finalmente com produção, a cargo da nossa amada Dedé Ribeiro, conseguimos – na verdade, ela conseguiu – montar nossa primeira gira européia, por clubes de jazz em Viena e Praga. Muito mais faria ela pela banda, até 2004.

Ao mesmo tempo assinam, com Arthur como compositor, a trilha do espetáculo infantil de teatro de bonecos Flicts, adaptação feita pelo diretor Roberto Oliveira do livro clássico do Ziraldo. O trabalho ganha vários prêmios e, três anos depois, vira o segundo CD da banda, lançado nacionalmente pela gravadora porto-alegrense Barulhinho em parceria com a distribuidora Tratore. É um disco cheio de participações especiais de amigos que estão entre os mais importantes artistas do Rio Grande do Sul, do rock à MPB: Vitor Ramil, Nei Lisboa, Nico Nicolaiewsky, Hique Gomez, Edu K, Comunidade Nin-Jitsu, Nelson Coelho de Castro e muitos mais… Relançado em 2008 pelo selo goiano Allegro, e novamente distribuído pela Tratore (com nova mixagem, capa e masterização).

Na virada do milênio, saem fora Fábio – para fazer sua carreira solo como band-leader – e Giovanni – já então um dos percussionistas mais requisitados do Estado. Para o lugar do primeiro, de volta ao começo: quem assume é o Adolfo Almeida Jr., primeiro-fagote da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Pra percussão e também bateria, convidam Ricardo Arenhaldt, virtuose solicitadíssimo por artistas gaúchos de todos os gêneros e parceiro de Boca na cozinha de vários trabalhos, como o quarteto de jazz Pictures. Ricardo e Guenther passam então a se revezar entre bateria, percussão, vibrafone e xilofone, formando a saudosa cozinha alemã da banda.

Como a expressão da personalidade de cada integrante é cada vez mais definidora do todo, o som muda muito. Fica mais pesado, mais pop, ainda mais anárquico e eventualmente até roqueiro – mas volta e meia ecoando desde bandinhas de coreto até os conjuntos melódicos que pipocavam na Porto Alegre dos anos 50. A nova formação estréia em 2000, numa edição do festival Porto Alegre em Buenos Aires, para um Teatro San Martin, Centro Cultural San Martin, Buenos Aires, Lotado – mais um telão na rua pra quem não conseguiu entrar. Seria o show mais disputado daquela edição do projeto, com o octeto recebendo como convidados mais uma vez Leo Maslíah, além do quarteto de saxes Cuatro Vientos e a compositora e cantora Carmen Baliero. Foi a primeira incursão bonairense da banda.

Nesse ano – junto com os também gaúchos Papas da Língua, Bebeto Alves e Renato Borghetti – são as atrações de mais um festival internacional: o Brasil 2000, realizado em Viena, Áustria. Nele, começa a se esboçar o repertório que desembocaria no show e disco Música pra Bater Pezinho. Lançado em 2005 pelo selo paulista YB, o disco tem as participações especiais dos Pato Fus John e Fernanda Takai, o rabequeiro pernambucano Siba, os paulistas Maurício Pereira e Cida Moreira, o paranaense Marcelo Sandmann e os gaúchos Fernando Pezão, Marcelo Delacroix e Nico Nicolaiewski. Além dos ex-integrantes Guenther e Giovanni, provando que só o amor constrói.

Ex-integrante? Sim, Guenther, baterista e sócio-fundador da empreitada, saiu fora em 2004, pra se dedicar a mais um instrumento inventado por ele, a Cravina. Valeu a pena, o cara já até lançou CD nessa nova carreira. Mas deixou saudades.

 Em compensação, tamos de produtora nova, a Áurea Baptista. Que, muitas vezes ao lado do Márcio Gobatto, outras tantas ao lado da Cláudia Braga, segurou essa peteca brilhantemente até 2010.

Com o novo show, são atração nas Noches Brasileiras do Festival Internacional de Buenos Aires, ao lado de Tom Zé, Elza Soares, Zé Miguel Wisnik, Luís Tatit, Na Ozzetti e Cida Moreira. Também participam de dois projetos no Sesc Pompéia, em São Paulo: o Prata da Casa e o festival Suis Possíveis. O disco é lançado em duas noites no também paulista Auditório Ibirapuera – com a participação de quase todos os artistas que gravaram o disco, vindos de quatro estados diferentes. Nesse mesmo ano de 2006 são – ao lado de Ná Ozzeti e André Mehmari – os únicos brasileiros a participar do Mercat de Musica Viva de Vic, festival catalão de World Music.

Música pra Bater Pezinho é recebido com excelentes críticas nos principais veículos brasileiros (jornais O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Zero Hora, Revista da MTV, sites variados), e é lançado no ano seguinte também na Argentina e Uruguai pela gravadora Random Records. Nesse lançamento portenho, o grupo toca como uma das atrações internacionais no festival Jazz y Otras Musicas, no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires. Mais uma vez lotado, mais uma vez telão para quem ficou de fora.

Enquanto isso, desde o final de 98 a banda vinha trabalhando um repertório de música de câmara escrito por Arthur especialmente para grupo e orquestra de cordas. Concebido como um projeto de dissolução de fronteiras tanto geográficas – Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai – quanto musicais – música dita erudita e música dita popular -, o concerto em 2002 se transformou no terceiro CD da banda: Meu Conjunto Tem Concerto. Em parceria com a Orquestra Unisinos, financiado pelo Fumproarte, fundo municipal de incentivo à cultura da Prefeitura de Porto Alegre, saiu pelo selo Barulhinho em parceria com a Tratore. O concerto segue sendo revisitado ao lado de variadas formações orquestrais: Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, Orquestra Unisinos, Orquestra de Câmara da Ulbra. Regido por alguns dos melhores maestros do estado: Antônio Carlos Borges Cunha, Tiago Flores e o co-idealizador José Pedro Boéssio. Invariavelmente para teatros lotados.

Desde então, o Seu Conjunto mantém o conceito de grupo de repertório, com três diferentes espetáculos passíveis de ser apresentados: Música pra Bater Pezinho, Meu Conjunto tem Concerto, e o instrumental Música pra Ouvir Sentado.

 Esse estreou em São Paulo, em 2002, a convite do projeto Instrumental SESC Paulista. Depois disso, dormiu dois anos e foi retomado, novamente a convite, pra abertura do Projeto Unimúsica 2005, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, naquele ano dedicado à música instrumental.

 Desde então, foi apresentado em projetos como o Jazz à Brasileira, do CPFL, em Campinas, São Paulo – com curadoria de Carlos Calado e nomes como João Donato na escalação -, e festivais como a Feira Música Brasil, em Recife, Pernambuco, 2007 e a Feira da Música Independente de Brasília, 2008. Além de várias temporadas no auditório da Livraria Cultura e no Teatro de Arena, ambos em Porto Alegre. Em 2011 virou o CD mais recente da banda, selecionado no edital 2010 da Natura Musical, grabado no Estúdio Sala Viva, em São Paulo e masterizado em Abbey Road, Londres.

No meio desse processo, em 2006 Ricardo Arenhaldt passa a bola para Diego Silveira, baterista, percussionista (colega de OSPA de Julio e Adolfo), compositor de música erudita contemporânea, instrumentista requisitado e um dos cabeças das banda Sinuca de Bico e Relógios de Frederico. Relógios, que dividem com o Seu Conjunto o episódio gaúcho da série Destino Brasil: Música, que é apresentado nacionalmente várias vezes em 2007, no Canal Brasil.

Televisão… cinema! Só em 2007, Arthur escreveu a música para sete curtas e dois longas. Em todos, a participação de pelo menos um dos seuconjuntinos. Em duas oportunidades, todos estão lá: no documentário em curta Gaúchos Canarinhos, de René Goya. E, no longa em plano-seqüência Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro – uma tour-de-force com um único take de 1h20 minutos pelas ruas e prédios de Porto Alegre, onde a banda faz grande parte da trilha ao vivo, com som direto. O filme percorreu festivais do Brasil e exterior e estreou nos cinemas nacionais em 2008.

Antes, em 2007, duas turnês importantes: uma pelo interior do Rio Grande do Sul – via Sesc, com o show Música pra Bater Pezinho misturado com o Música pra Ouvir Sentado. E outra, nacional, na edição de 30 anos do Projeto Pixinguinha, toda em dupla com a velha parceira Cida Moreira, com quem já tinham feito, em 2001, o show de inauguração do centro Santander Cultural, em Porto Alegre – depois batizado de Afinidades Eletivas e apresentado algumas vezes em Porto Alegre (2002 e 2004) e num final de semana no Itaú Cultural, em São Paulo (em 2003).

Ao longo desses 16 anos, cinco discos e centenas de  shows, o Arthur de Faria & Seu Conjunto sedimentou uma sonoridade que é, cada vez mais, única. Uma idéia de unidade na diversidade, sob a ótica da mistura. Mistura de conceitos e de ritmos, ainda que basicamente oriundos do que um jornalista paulista, pasmo, certa vez definiu como os ELP: Estados Livres do Prata (Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul). Tudo visto sob um olhar fundamentalmente porto-alegrense, de quem vive numa cidade ao mesmo tempo cosmopolita e provinciana.

Vale MPB, jazz, música de câmara, pop, funk, metal. Valem tangos e milongas, vale a unza-unza music dos Bálcãs, vale Jobim, Monk e Nino Rota. E se alguma definição possível houvesse para o que faz esse hoje septeto de dementes, seria: música pra prestar atenção, com um sorriso na cara, e eventualmente batendo o pezinho, bem faceiro.

Hoje a produção tá com a Andréa Terra, outra querida e competente do nosso time de queridas e competentes. E atende pelo (51) 9912-2000.

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