Bandas covers são fenômenos nos bares da capital

por PAULO GERMANO Noites de tributo e bandas que copiam fielmente os ídolos viram fenômeno nos bares da Capital Porto Alegre entrou definitivamente no roteiro dos grandes shows internacionais. E o que é melhor: algumas bandas voltam à cena só para agradar ao público gaúcho. Todas as semanas dá para ver ao vivo (e sem pagar muito) The Doors, Led Zeppelin ou Black Sabbath – para não falar de Beatles e Rolling Stones. É a covermania, que sepulta o papo de seja você mesmo. Talento aqui é a cópia escancarada, o apego ao passado, a obstinação em se transformar no próprio ídolo. Essas bandas-tributo, como Back Doors Band, Physical Machine (Led), Voodoo (Sabbath), Beatles Fanclub Band e Rola Stones, dispostas a tocar, cantar e se comportar de forma idêntica a grupos consagrados, não representam uma novidade. De um ano para cá, porém, o culto ao xerox ganhou espaço no circuito roqueiro da Capital. Com bandas cada vez mais semelhante às originais, casas de shows promovem noites temáticas (veja quadro) e produtores assumem o filão como principal fonte de renda. Emuladora do grupo americano Kiss, a Parasite é um exemplo da seriedade com que as bandas-tributo encaram o mercado. Um show completo – incluindo máquina de fumaça, fogos de artifício, guitarra quebrada no palco e baixista babando sangue – pode custar R$ 2 mil de cachê (o ingresso sai por R$ 12, em média). Mais da metade é investida na manutenção da parafernália e na maquiagem. Aliás, o guitarrista que encarna Paul Stanley, Felipe Pianta, 31 anos, usa peruca. – Quem faz as roupas é minha irmã, que é estilista. Adoro essa pompa, Kiss para mim é mais que uma banda, é um estilo de vida. Não fosse eles, seria gordo até hoje – diz Felipe, que despencou de 93 quilos para 66 a fim de caber no figurino de vinil, 12 anos atrás, quando a Parasite fez seu primeiro show. Como boa parte dos grupos especializados de Porto Alegre, a Parasite faz uma média de quatro shows por mês, na Capital e no Interior. Segundo Marcelo Marchett, sócio-proprietário do Art & Bar, bandas cover lhe proporcionam os maiores lucros da semana. A maioria dos frequentadores da casa, destaca Marchett, parece pouco motivada para ver artistas de repertório próprio. – Estamos em uma espécie de entressafra. Há bandas de trabalho autoral que já se firmaram, mas a nova geração está devagar – justifica Ricardo Finocchiaro, produtor-executivo da Abstratti, que só neste mês promoverá quatro festas com bandas-tributo na Capital. Para o produtor musical Raul Albornoz – que nos anos 1990 ajudou a catapultar uma expressiva cena com Acústicos & Valvulados, Tequila Baby, Comunidade Nin-Jitsu e Bidê ou Balde -, o movimento é cíclico: em breve, novas bandas devem se destacar com composições próprias, e os tributos voltarão a segundo plano. Proprietário do Garagem Hermética, tradicional reduto roqueiro de Porto Alegre, Fernando Nazer reflete sobre uma tendência: – Hoje, montar uma banda está fora de moda. A moda é ser DJ, as pessoas pagam para ouvir som mecânico. Essa cultura desvaloriza qualquer cenário de música própria. Algumas pessoas têm dupla personalidade. Nando Rosa tem tripla. Durante a tarde, é um sociólogo barbudão e sorridente, que trabalha com crianças pobres em uma ONG na Zona Sul. Mas basta a noite cair para o ar bonzinho evaporar: fisionomia carregada, crucifixo no peito, Nando raspa a barba mas mantém o bigode setentista, e ali transforma-se em Tony Iommi, guitarrista da banda inglesa Black Sabbath. Na mesma noite, o rapaz promove outra metamorfose. Após limar o tufo de pelos sob o nariz, volta ao palco de paletó, gravata e bermuda, e ali começa uma dança frenética com a guitarra em punho – ele agora é Angus Young, do grupo australiano AC/DC. O Segundo Caderno foi à festa-tributo, no Revolution Music Pub, em que Nando Rosa, 27 anos, tocou nas duas bandas que integra – a Voodoo, que reverencia o Sabbath, e a Volts, emuladora de AC/DC. Apenas amigos do guitarrista sabiam que se tratava da mesma pessoa nos dois shows. No intervalo, Nando sequer pensou em cerveja ou namorada: queria mesmo era tirar o bigode, para deixar de ser Iommi e virar Angus de uma vez. – Minha obsessão é ser o mais fiel possível. O que me fascina em fazer tributos é que, além de músico, preciso ser ator – afirma Nando, que na mesma noite voltou a deixar barba e bigode crescerem. Realmente, impressiona a exatidão com que Nando reproduz os trejeitos dos ídolos. Como Iommi, é carrancudo e quase imóvel; mas quando encarna Angus, vira uma locomotiva desgovernada: corre pelo palco, sacode a cabeça e, na música The Jack, protagoniza um strip-tease – não mostra tudo, mas mostra muito. Tanto na Volts quanto na Voodoo, chamam a atenção também os vocalistas. Igor Assunção imita à perfeição o estilo caminhoneiro de Brian Johnson, do AC/DC, além de cantar incrivelmente parecido. Na Voodoo, até o que há de mais desajeitado em Ozzy Osbourne é mimetizado com afinco por Felipe da Costa Franco – fiel ao Ozzy magrela dos anos 1970, e não à persona robusta da carreira solo. Felipe, 21 anos, vê ideologia no que copia: – O Black Sabbath reunia pessoas que vieram de baixo, em uma época em que roqueiros eram do underground. Hoje, o rocknroll é cheio de bundinhas, com dinheiro para pagar instrumentos. A exemplo de Nando, Felipe também trabalha com pessoas pobres – ele se diz de classe média baixa. Estudante de Geografia na UFRGS, é professor em uma espécie de pré-vestibular para alunos sem condições de pagar. Felipe, por enquanto, não tem banda de trabalho próprio, algo que Nando e outros dois integrantes da Volts conduzem em paralelo aos tributos. O grupo deles chama-se Cartel da Cevada. – Preciso me policiar para, nessa banda, não parecer nem o Angus nem o Iommi – pondera Nando. – É um momento em que tenho de me encontrar como músico. Nem só de anônimos vive o cover. A adesão de músicos tarimbados reflete a excitação em torno do fenômeno. Os casos mais expressivos são Império da Lã – uma reunião de roqueiros capitaneada pelo vocalista da Bidê ou Balde, Carlinhos Carneiro – e The Polainas, sob o comando do guitarrista Tchê Gomes, ex-TNT. A primeira começou há dois anos, tocando canções variadas de artistas como Frank Sinatra, Beatles e Tim Maia, mas mergulhou na onda dos tributos com o projeto Classic Albums. Uma vez por mês, no Porão do Beco (Independência, 936), a Império executa de cabo a rabo um disco consagrado. Já interpretou com surpreendente fidelidade obras de David Bowie, Radiohead, Bob Marley, Nirvana e Roberto Carlos. O próximo será Carlos, Erasmo, de Erasmo Carlos, no dia 11. O grupo chega a lucrar R$ 5 mil nas edições de casa lotada. – Começamos como brincadeira, sem qualquer pretensão. Claro que, quanto mais dinheiro envolvido, mais seriedade aparece – avalia Carlinhos.- Mas eu lucro muito mais com a Bidê ou Balde. The Polainas, banda que Tchê Gomes montou ao lado de sua mulher, a cantora Gaby, abrange um repertório de 70 clássicos dos anos 1980, que vão de Roxette a Cindy Lauper, passando por Kid Abelha e, obviamente, TNT. O tributo ganha força no Especial Madonna, quando Gaby capricha no figurino – flertando com a cafonice da época – e imposta a bela voz acompanhada de arranjos que remetem aos melhores momentos da Material Girl. A banda cobra entre R$ 1,6 mil e R$ 2,3 mil por show. A próxima apresentação está marcada para o dia 13, no Long Play. – Hoje é o projeto que me dá mais volume de trabalho e, portanto, acaba sendo o mais rentável – assume Tchê, que ainda toca na Sombrero Luminoso e na Tenente Cascavel. 5 bandas mais homenageadas 1º – Beatles2º – Rolling Stones3º – Pink Floyd4 º – The Doors5º – Led Zeppelin – Não deixam nada a desejar para a original, e olha que sou o maior fã de Kiss. A declaração de Roberto Paganella de Almeida, 28 anos, após assistir ao show da Parasite no Eclipse Studio Bar, sintetiza a aceitação das bandas-tributo pelo público da Capital. Roberto viu o Kiss original recentemente, na Argentina, e afirma com propriedade: um cover bem feito, com figurino fiel e tudo mais, realiza qualquer tiete de qualquer banda. No show da Volts, que copia o AC/DC com primor, duas garotas subiram ao palco enquanto Nando Rosa – o xerox do guitarrista Angus Young – sacolejava o corpo inteiro. Uma delas era Fernanda Bina Lima, 32 anos. – Jamais conseguirei ver o AC/DC ao vivo, e aqui realmente é como se estivesse com eles. Subir no palco com o Angus, então, quando eu conseguiria? Deu para notar que ser cover tem lá suas vantagens. Nem só de anônimos vive o cover. A adesão de músicos tarimbados reflete a excitação em torno do fenômeno. Os casos mais expressivos são Império da Lã – uma reunião de roqueiros capitaneada pelo vocalista da Bidê ou Balde, Carlinhos Carneiro – e The Polainas, sob o comando do guitarrista Tchê Gomes, ex-TNT. A primeira começou há dois anos, tocando canções variadas de artistas como Frank Sinatra, Beatles e Tim Maia, mas mergulhou na onda dos tributos com o projeto Classic Albums. Uma vez por mês, no Porão do Beco (Independência, 936), a Império executa de cabo a rabo um disco consagrado. Já interpretou com surpreendente fidelidade obras de David Bowie, Radiohead, Bob Marley, Nirvana e Roberto Carlos. O próximo será Carlos, Erasmo, de Erasmo Carlos, no dia 11. O grupo chega a lucrar R$ 5 mil nas edições de casa lotada. – Começamos como brincadeira, sem qualquer pretensão. Claro que, quanto mais dinheiro envolvido, mais seriedade aparece – avalia Carlinhos.- Mas eu lucro muito mais com a Bidê ou Balde. The Polainas, banda que Tchê Gomes montou ao lado de sua mulher, a cantora Gaby, abrange um repertório de 70 clássicos dos anos 1980, que vão de Roxette a Cindy Lauper, passando por Kid Abelha e, obviamente, TNT. O tributo ganha força no Especial Madonna, quando Gaby capricha no figurino – flertando com a cafonice da época – e imposta a bela voz acompanhada de arranjos que remetem aos melhores momentos da Material Girl. A banda cobra entre R$ 1,6 mil e R$ 2,3 mil por show. A próxima apresentação está marcada para o dia 13, no Long Play. – Hoje é o projeto que me dá mais volume de trabalho e, portanto, acaba sendo o mais rentável – assume Tchê, que ainda toca na Sombrero Luminoso e na Tenente Cascavel. Fontes: Ricardo Finocchiaro (Abstratti Produtora), Marcelo Marchett (Art & Bar), José Enrique Morales (Batemacumba) e Ivan Laurindo da Silva (Revolution Music Pub)

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