Coluna Remix, da Zero Hora, faz excelente matéria sobre três bandas gaúchas

Hoje em edição especial, o Remix flagra os lançamentos de três bandas da cena gaúcha. Os Valentinos fazem show hoje no Beco, os Volantes se apresentam amanhã no mesmo palco e os Cartolas estão em turnê por diferentes cidades do Estado. Confira:

Valentinos (por Gustavo Brigatti)

O que aconteceria se, ao invés da Manchester dos anos 1990, o Oasis fosse formado em Porto Alegre no início do século 21? Bom, ele se chamaria Valentinos e estaria lançando seu primeiro disco hoje, a partir das 23h, no Beco (Independência, 936), na Capital.

Produzido durante todo o ano de 2009, Avante é mais do que simplesmente influenciado pela finada banda dos irmãos Gallagher. Ele trafega a toda velocidade no perigoso limiar entre a reverência respeitosa e a tentativa de soar exatamente igual aos ídolos – dúvida que se desfaz com a audição de duas ou três faixas. Riffs de guitarra, levada, timbre vocal e até as letras gritam incessantemente por Noel e Liam não deixando dúvidas de que o grupo escolheu a segunda opção.

Só que o Oasis acabou em 2009. Musicalmente, acabou em 1997, o que envelhece o som dos Valentinos em mais de uma década. E Jonts Ferreira (vocal e guitarra), Foppa (guitarra), Che Wodarski (bateria), Ferry (baixo) e Roberto Chiodelli (teclas) não estão nos arredores da metrópole enevoada que tanto veneram, embora toquem com vontade e façam um show onde não falta pegada e entrega. Honram de verdade o rock britânico onde se esbaldam e não negam.

– Por mais que a gente ouça coisas novas, temos uma raiz muito forte ali pelos anos 1990, aquela coisa bem rocker, pouca frescura e muita música – explica Foppa.

Se tivessem direcionado parte dessa energia a outras vertentes ou gêneros, talvez Avante emplacasse como um dos bons discos de rock de 2010. É um disco bem produzido e executado, mas vai divertir muito mais quem não conhece Oasis, Stone Roses, Blur, Supergrass e arredores. Há tempo ainda, de qualquer forma.

AVANTE
Valentinos
Rock. Beco 203
Discos, 11 músicas,
R$ 10 em média à
venda nos shows.

Volantes (Por Paulo Germano)

É um negócio assustador esse início de carreira dos Volantes. Lançaram um disco de seis músicas – com duas vinhetinhas para fazer número – e, em cinco meses, se consolidaram como um fenômeno incontestável. E merecido.

Em tudo que era votação na internet, fosse para escolher uma banda de abertura para o Pato Fu, fosse para abrir o show do Faith no More, os Volantes mobilizavam dezenas de milhares de fãs e pimba: ganhavam, disparado, para irritação da panelinha tarimbada. Mais de 3 mil pessoas ouviam diariamente, no MySpace, aquele punhado de músicas que o quinteto de Porto Alegre recém havia gravado, no final de 2009.

E logo veio um convite para tocar com o Placebo em Porto Alegre, em seguida chegou o assédio de grandes gravadoras, depois três indicações para o Prêmio Açorianos de Música, shows entupidos em São Paulo e no Rio, elogios na MTV e, bom, isso é só um resumo. E só o início.

Porque os Volantes têm algo que nenhuma outra banda tem. Não no Rio Grande do Sul; talvez nem no Brasil. O rock sofisticado de Sobre Gostar e Esperar, lançado sem gravadora e sem maiores pretensões, consegue abarcar uma larga faixa etária: desde adolescentes comovidos com o romantismo das letras até quarentões absortos por arranjos e harmonias de rara maturidade – algo semelhante ao que o Coldplay conquistou no início dos anos 2000.

Arthur Teixeira (voz e guitarra), João Augusto (guitarra), Otávio Mastroberti (teclados), Bernard Simon (baixo) e Rodrigo Mello (bateria) tocam sábado no Beco (Independência, 936). Será o primeiro show na Capital após uma turnê que levou ao centro do país uma banda ainda sem álbum – Sobre Gostar e Esperar é um EP, embora tenha concorrido no Açorianos como melhor disco.

– Tínhamos as músicas, mas não tínhamos dinheiro. Então gravamos poucas para ver se, mais tarde, alguém banca as outras ou o dinheiro dos shows nos ajuda. Parece estar dando certo – diz Arthur.

Mas o registro soa tão uniforme, em especial pelo vigor das ambiências dos sintetizadores, que o embalo pop do R.E.M., a ansiedade pós-punk do Joy Division e a hipnose eletrônica do Kraftwerk se condensam com melancolia e requinte naquele que já é um dos melhores discos dos últimos meses.

SOBRE GOSTAR E ESPERAR
Volantes
Rock. Lançamento independente, oito faixas. Disponível para download no site www.myspace.com/volantesvolantes. O CD é vendido por R$ 5, a partir de pedidos no e-mail [email protected] com e nos shows da banda.

Cartolas (Por Luís Bissigo)

Diferentemente das demais bandas citadas nesta coluna, os Cartolas não estão lançando seu disco de estreia. Isso foi há quase três anos: Original de Fábrica (2007) cumpriu bem o papel de situar o quinteto na linha de frente do rock independente sulista, com hits como Cara de Vilão e Sujeito Boa Praça. Agora a bronca é o segundo álbum, e Quase Certeza Absoluta é registro fiel da nova fase do grupo.

A diferença entre os dois discos começa na concepção. As músicas do primeiro CD ainda estavam sendo escritas quando os Cartolas – Luciano Preza (voz), Otávio Silveira (baixo), Pedro Petracco (bateria), Christiano “Melão” Todt e Dé Silveira (guitarras) – entraram no estúdio carioca Toca do Bandido, prêmio pela vitória no concurso nacional Claro q É Rock, em 2005. Desta feita, a pré-produção foi feita durante duas semanas em um sítio em São Francisco de Paula.

O resultado é um disco menos urgente e espontâneo, embora mais elaborado e reflexivo. A fé em Kinks e Strokes não foi abalada – mas os arranjos de metais em Uma Consulta por Mês e Pois É! e os leves toques eletrônicos de Janela Errada evidenciam as novas ambições dos Cartolas. O que também é evidente no tom desiludido das letras – que, bom sinal, conservam a veia irônica – e na redução da velocidade média das canções, que o guitarrista Dé explica com uma memória de infância.

– Quando era pequeno e estava aprendendo a andar de bicicleta, pedalava rápido para não cair. Depois tu vês que é só equilibrar – compara o guitarrista. – No primeiro disco, não tínhamos uma cara ainda. Agora, foi como se já tivéssemos uma intenção um pouco mais racional.

QUASE CERTEZA ABSOLUTA
Cartolas
Rock. Antídoto/Lado Inverso, 13 músicas, R$ 19 em média.

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