Com DVD, Kleiton e Kledir mostram que não são coisa do passado

O Rio Grande do Sul, para Kleiton e Kledir Ramil, é no Rio de Janeiro, onde moram desde 1977. Mesmo distante por alguns milhões de quilômetros, o estado gaúcho paira sobre as lembranças de infância da dupla, sobre os conceitos de algumas canções novas dos músicos e até pelo dia a dia dos dois irmãos, que mantêm o sotaque da região e não largam suas cuias de chimarrão por nada. Lançando um pioneiro CD/DVD formado apenas por músicas inéditas, Autorretrato (Canal Brasil/Pandorga/Som Livre), comemoram o fato de a nova geração de músicos gaúchos não precisar sair de lá para fazer e divulgar sua música ¿ graças às pontes garantidas pela internet e pela curiosidade natural adquirida pelo público após o êxito de vários artistas vindos de terras gaúchas. Hoje até tem bandas, como o Cachorro Grande e o Fresno, que são gaúchas mas deixaram Porto Alegre, foram para São Paulo. Mas nem é necessário, lembra Kledir. Vê só o caso do Papas da Língua, que conseguiu até ter música em novela e fazer muitos shows no Rio sem sair de lá. É gostoso não precisar sair do Sul, repare que até bandas como Nenhum de Nós e os Engenheiros do Hawaii voltaram. Para nós é diferente, viemos cedo e fizemos nossas famílias aqui. Direto do túnel do tempo, Kleiton recorda a época em que os irmãos de Pelotas, interior do Rio Grande do Sul, começavam a carreira em grupos como o célebre Almôndegas (do hit único Canção da meia-noite, imortalizada pela trilha da trama global Saramandaia, em 1976). Para se ter uma ideia, quando os Almôndegas montaram seu primeiro show, não havia mercado para equipamentos por lá e tivemos que usar uma empresa que botava som em igrejas, lembra Kleiton. Eu me sinto privilegiado. Nasci no interior, fui para Porto Alegre com 18 anos só e, antes disso, já estava envolvido com a música, tocando violino, desde os 9 anos. Com os Almôndegas, conseguimos ser a primeira banda gaúcha a ter material veiculado nas rádios de lá, após gravar uma fita na rádio Continental para mandar às gravadoras. Amigo da dupla e autor de uma música gravada por eles em 1983, 433, o cantor e compositor conterrâneo Bebeto Alves elogia o pioneirismo e a determinação dos irmãos Ramil. E diz que ainda hoje nem tudo é fácil para os gaúchos. Não existe uma leitura do que a gente faz, ainda falta um entendimento porque a gente se refere, nas letras, à nossa mitologia, afirma Alves, que também vive no Rio e lançou recentemente o CD Devoragem. Ainda somos uma incógnita no território cultural brasileiro. Kledir brinca que até os fãs da dupla têm dificuldade de entender algumas coisas. Eles me chamam de Kleiton direto, por exemplo. Mas acho que confundem mais o Kleiton comigo, porque o primeiro nome é o dele. Já tive que assinar por ele em autógrafos!, graceja. Até quando ele foi casar o padre se confundiu e perguntou à noiva: aceita Kleiton e Kledir como seu legítimo esposo?. Como verdadeiros embaixadores da música de seu estado, os dois acompanharam o surgimento de uma verdadeira gama de artistas, que vai do mano mais novo Vitor Ramil a nomes quase contemporâneos, como Bebeto, Nelson Coelho de Castro e Nei Lisboa. Além de artistas que muita gente não relaciona como gaúchos, como Adriana Calcanhotto. Ah, mas uma vez, conversando com Adriana, disse a ela que suas linhas melódicas, longas, têm a ver com o pampa gaúcho, afirma, bem-humorado, Kleiton, que, formado em música eletroacústica pela UFRJ, responde pelo lado mais experimental, quase erudito, da dupla. Ouço mais música clássica e instrumental do que popular e tento trabalhar num limite, para não deixar a música impopular. No DVD, para manter a linha popular que tornou canções como Deu pra ti, Maria fumaça e Paixão sucessos de rádio, contaram com a ajuda do produtor galês Paul Ralphes. Radicado no Brasil desde os anos 90, conhece bem a dupla, e trouxe para ela um som de banda, que se casa com as propostas de Jam da Silva (percussão) e Luciano Granja (guitarra). Quisemos preservar nosso estilo dos anos 80, mas modernizá-lo, conta Kleiton. E foi legal fazer o DVD, porque estou bem mais interessado nisso do que em CDs.

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