Defalla: Edu K fala sobre o novo disco em entrevista para o Segundo Caderno da Zero Hora

Precursor do funk metal, crossdresser antes do Laerte e apresentador de reality show. Às vésperas de completar 45 anos, Edu K olha para o espelho e gosta do que vê. Só não gosta mais porque os cabelos – que já foram submetidos a todos os formatos e cores possíveis nas últimas décadas – insistem agora em ficar brancos.

– Mas eu pinto – ele garante.

De fato, o músico gaúcho radicado em Santa Catarina tem pouco a reclamar. Enquanto seus contemporâneos remam para se manterem relevantes reciclando o passado, Edu K produz o novíssimo e aguardado disco de inéditas do Defalla – ícone dos anos 1980, o grupo influenciou uma leva de bandas nos anos 1990 e antecipou o funk no imaginário pop.

Junto da banda, reativada com sua formação original em 2011, Edu K tem percorrido o país se apresentando em festivais, ao mesmo tempo em que produz o sucessor de It’s Fuckin’ Borin’ to Death (1988), segundo disco do grupo. Os três trabalhos posteriores (de 1989 a 1992), segundo Edu, foram“ tudo piração minha, a banda não teve culpa de nada, eu só usurpei o nome”.

Assim, o novo álbum passará longe do funk e da música eletrônica, retomando o rock cru dos dois primeiros registros.

– No início foi complicado. Pensei: Caramba, como vamos fazer pra sermos melhores do que nos outros discos?. É como ser o The Who e ter que fazer show depois do Jimi Hendrix. Mas com o tempo as coisas foram ganhando forma. Queremos lançar em (formato) digital até novembro. Senão, só em março.

Sozinho, Edu prepara o lançamento de um disco de tecnobrega na Europa (Do The Brega) e um EP tipo Naldo encontra Anitta com produção de David Guetta’ no Brasil. No começo do ano, entre uma incursão e outra como DJ dentro e fora do país, apresentou o reality show musical Breakout Brasil, no canal pago Sony Spin.

Com a verve habitual, Edu K avalia a volta do Defalla a suas origens sem falsa modéstia (Estamos no mesmo nível que os Mutantes), mas avisa que a carreira solo segue no ritmo do funk (Continuo achando funk uma das coisas mais modernas que existem).  De Facebook a Miley Cyrus, confira ao lado o que mais ele tem a dizer.

DEFALLA
Ainda somos uma banda sui generis no cenário nacional. Passado tanto tempo do lançamento dos nossos primeiros discos, eles continuam importante, envelheceram bem. Mas não acho possível localizar o Defalla no cenário musical brasileiro. Ela é simplesmente a banda mais foda que já existiu. Sem falsa modéstia, a gente está no mesmo nível que os Mutantes. Por tudo o que já fizemos, de experimentação, de abrir caminhos, eu sei o nosso valor. E por isso talvez essa volta seja tão importante, para reafirmar o nosso lugar na história da música.

DISCO NOVO
No início foi complicado. Pensei: caramba, como vamos fazer pra sermos melhores do que nos outros discos? É como ser o The Who e ter que fazer show depois do Jimi Hendrix. Mas aí com o tempo as coisas foram ganhando forma. Musicalmente, ele dá sequência aos dois primeiros discos que fizemos. Tem umas coisas meio de grunge no disco, não exatamente música grunge. E tem muito progressivo, que a gente adora e fez pouco. O processo é esse: a gente lança a pedra fundamental e aí vai enchendo de coisas. Queremos lançar em digital até novembro. Senão, só em março.

TECNOBREGA
O tecnobrega existe há muito tempo, mas eu não gostava muito. Gostei quando começou o electro melody, um electro mais bagaceiro. Mas o meu brega é o brega de quem vem de fora, tipo Beastie Boys. É o olhar do estrangeiro.

FUNK
Estou lançando agora um EP que é tipo Naldo e Anitta encontram David Guetta, dando continuidade com o que eu fiz com a Popuzuda, mas sem ser exatamente funk. Electro house de coxinha, manja. Bem pop, letras em português, coreografias. O funk há um tempo atrás entrou numa fase minimal que é só batido, um detalhe e a voz. Funk é muito moderno. Só deu uma estagnado por causa da entrada do tamborzão e tamborzinho, mas de resto continua muito a frente de várias cenas.

EXCESSO DE INFORMAÇÃO
Sou da época em que o (produtor e hoje jurado de TV) Gordo Miranda era o Google da galera. Não sei como, mas eu já pensava e falava coisas referentes a internet numa época que não existia internet. Mas hoje eu vejo que na minha imaginação era mais legal. O que acontece é que quando a galera não tinha acesso, era menos preguiçosa. Havia um prazer e uma certa ingenuidade em ir atrás das coisas. Agora parece que falta tesão, tem informação demais e tá tudo ali o tempo todo. Tua baixa um HD inteiro de música e não ouve. Rola um cansaço, um tédio. Mas tudo é processo, uma hora as coisas mudam e surge outra coisa. O quê exatamente eu não sei, um hecatombe zumbi nuclear talvez.

ENVELHECER
Quando eu era moleque eu me preocupava mais com envelhecer, era natural não querer ser velho, porque representava tudo aquilo que eu não gostava. Mas aí quando eu cheguei lá pensei ah, era só isso?. Sinceramente, hoje me acho melhor em tudo, como músico, como produtor, estou muito mais bonito também. O único problema é ter que pintar o cabelo. E eu pinto.

SUBVERSÃO
Subversão é qualquer coisa, não tem uma cartilha. Mas é preciso relativizar: por exemplo, a Miley Cirus no meu colo seria subversão, botando a língua pra fora e rebolando aquele bunda magra dela no VMA, não. Mas até isso eu gosto, dessas apropriações coxinhas do mundo pop. No fim é engraçado, é divertido. Essa coisa de ah, mas isso é uma afronta a história da contracultura, que bobagem, parem de se levar tão a sério.

PATRULHA DE FACEBOOK
Não tem mais tanta patrulha ideológica hoje, então todo mundo faz o que quer. O Facebook não conta porque está todo mundo patrulhando. E quando todo mundo está fazendo a coisa dilui, perde a força. Antes tinha uma patrulha política, de não poder usar terno se fosse um punk da Osvaldo Aranha. Essa patrulha do Facebook é muito chata, esses ativistas de timeline não me pegam. Facebook é legal para um monte de coisa, mas é uma baita bundamolice.

PÚBLICO
Tocamos bastante em festivais desde que voltamos. Sempre tem a ala geriátrica e do sanatório, mas também tem uma piazada que nunca ouviu falar da gente. E eles depois vem falar caramba, que banda é essa, a gente nunca ouviu falar de vocês! É banda nova?. É complicado, porque a banda nunca acabou, mas a gente ficou fora da mídia e nossos discos estão fora de cátalogo. Pra ouvir, só na base da pirataria. Inclusive tem vários amigos em Porto Alegre que fazem pirataria nas lojas, pedem pra gente autografar pra vender mais caro… Mas o legal de ver esse público mais novo é notar que a banda continua relevante.

SAMBA DO FUNKEIRO DOIDO
Ninguém da banda pode ser culpado por nada do que aconteceu depois dos dois primeiros discos. Eu fiz a Popuzuda, eu fiz Amanda. Eu segui na minha loucura, e aquilo pra quem é fã da banda, bom… Mas eu não acho ruim, acho inclusive legal o que eu fiz na trajetória da banda. Foi uma usurpação total do nome! Primeiro foi o velho Manuel se remexendo no caixão, depois a própria banda…

DISTÂNCIA
Eu moro em Floripa, o Castor mora em Maceió, a Biba e o Flu em Porto Alegre, então é um pouco chato, mas se a gente estivesse junto o tempo inteiro, talvez tivesse se esfaqueado. Então isso gera uma tensão sexual interessante na banda. É ruim porque demoramos um ano e meio para fazer esse disco. Ligamos o gravador no estúdio e tocou o dia inteiro durante dois, tres dias, e sairam as bases iniciais. E agora a gente está botando o restante.

INFLUÊNCIAS
É a primeira vez que fazemos um disco só nos quatro. E como estou produzindo, a loucuragem vem e aflora naturalmente. No início, queria trazer uma sonoridade mais moderna, eletrônica, para o disco. Mas aí seria muito artificial, seria mais coisa minha do que da banda, e isso foi algo que combinamos: agora é banda, as decisões são conjuntas. Fora o entrosamento, é fantástico.

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