Em novo álbum, o tempo, os instrumentos e a voz determinam a qualidade das canções de Guilherme Schwab

Guilherme Schwab / Pedro Marques

Guilherme Schwab ia começar a se dedicar ao lançamento de seu primeiro álbum, seis anos atrás, quando foi atropelado por uma série de acontecimentos que mudariam sua vida e os rumos de sua carreira. Para melhor. “Pangea” foi lançado e apresentou o talento desse artista niteroiense como cantor, compositor e multi-instrumentista. No entanto, o trabalho foi pouco divulgado, pois ele precisou agarrar oportunidades que foram surgindo e engordando o seu currículo. Correria total.

Em 2014, Guilherme Schwab estreou no programa Superstar, da TV Globo, como integrante do Suricato. Em 2015, com a banda, tocou no Rock in Rio, explodiu a canção “Trem” nas rádios, levou um Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock Brasileiro com “Sol-te” e emplacou canções em novelas. A partir daí, como instrumentista, acompanhou em palcos, estúdios, programas de TV e trilhas sonoras alguns dos maiores nomes da cena musical brasileira e internacional: Pepeu Gomes, Baby Do Brasil, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Armandinho Macedo, Toni Garrido, Dinho Ouro Preto, Paulo Miklos, Paulo Ricardo, Roupa Nova, George Israel, Kiko Zambianchi, Tiago Iorc, Chitãozinho e Xororó, Luan Santana, Paula Fernandes, Preta Gil, Moska, Carlinhos Brown e Raul Midón, entre outros.

Toda essa experiência e mais a sua história com o didgeridoo – instrumento musical oriundo dos aborígenes australianos do qual virou um dos poucos especialistas no Brasil e que foi um divisor de águas em sua música – preparou o terreno para que o cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista pudesse voltar a se dedicar às próprias composições. E, com tempo, com a tranquilidade e o esmero que os treinos no didge lhe ensinaram, ele registrou cinco canções, que vem lançando em forma de singles desde o final de 2019 e estão reunidas no álbum Tempo dos Sonhos.

“O nome do álbum foi inspirado na crença dos povos originais da Austrália em uma forma de tempo que seria um ciclo infinito espiritual mais real do que a própria realidade: para eles, o chamado ‘Dreamtime’ é a origem de tudo, o tempo da criação. Para tocar o Didgeridoo é necessário dominar a técnica meditativa da respiração circular, que consiste em puxar o ar sem parar de soprar, sendo essa uma das formas de acessar o Tempo do Sonhos“, explica Schwab.

Com arranjos solares e refrões marcantes, o álbum reitera o talento de Guilherme Schwab como autor e intérprete e mostra sua capacidade de traduzir sons para o universo pop. Dono de um estilo inconfundível, ele se apresenta com instrumentos de várias partes do mundo, como o weissenborn (violão havaiano) e o hang drum (percussão original da Suíça). O didgeridoo, através do qual os aborígenes passam os ensinamentos de sua cultura aos mais jovens, também é uma maneira sua de acessar o tempo dos sonhos. É o instrumento australiano que dá um toque diferenciado a Tocando em Frente. A versão rock’n’roll com influência indiana do clássico de Renato Teixeira e Almir Sater tem participação de André Gomes no sitar e um mantra na voz de Sri Vidya, codinome da cantora, atriz e bailarina Via Negromonte.

Além da regravação, o álbum reúne quatro composições de Guilherme Schwab. Vem, em parceria com Juliano Cortuah, Hora e Lugar, Seu Pra Sempre e Vamo Embora Viver também trazem a experiência do músico com diversos tipos de sonoridade. E o melhor: com sua voz dando brilho às interpretações. Ele canta todas as faixas e toca: violão, viola caipira e guitarra em Vem; violão, guitarra, guitarra slide, gaita e dobro em Hora e lugar; didgeridoo, violão, guitarra e guitarra 12 cordas em Tocando em frente; violão, guitarra e dobro em Seu Pra Sempre; e viola caipira slide, dobro e gaita em Vamo Embora Viver.

O primeiro single saiu em 2019 com o videoclipe da faixa Hora e Lugar (https://www.youtube.com/watch?v=Q2yoMu7YePc). Já em 2020, o clipe de Tocando em Frente (https://www.youtube.com/watch?v=7mRIJCVgC3I) também foi dirigido por Bruno Murtinho. Já foram lançados também os clipes de Vem (https://www.youtube.com/watch?v=SrNB54-FTYI), com direção da produtora Memória Lúdica, e Seu Pra Sempre (https://www.youtube.com/watch?v=Tx_r9zMLKQY), tendo este último sido registrado durante o isolamento social devido ao coronavírus, com direção do próprio Guilherme Schwab.

Gravado no estúdio Nave 33, Tempo dos Sonhos conta com Pedro Mamede, Kadu Menezes e Pompeo Pelosi se alternando na bateria (Pelosi ainda trouxe novas cores com seu washboard); Junior Moraes na percussão, programações e vocais; Alessandro Matias no baixo; Rodrigo Tavares no teclado Hammond; e Juliano Cortuah no backing vocal. Além de emprestar a voz para algumas faixas, Cortuah assina a produção de todas elas. A mixagem ficou a cargo de Moogie Canazio, em Los Angeles, onde Guilherme Schwab aportou para finalizar o trabalho.

Gravado em Los Angeles nos intervalos da mixagem, o clipe de Vamo Embora Viver – dirigido por Juliano Cortuah – mostra o lado blueseiro do instrumentista virtuoso: “Compus essa música na viola caipira e é inusitado que seja a faixa mais pesada do disco, porque ela foi gravada com instrumentos acústicos, exceto o baixo. O arranjo precisava envolver frases como: ‘Eu to cantando esse som pra te sintonizar / Não importa tribo, credo, raça ou nação / Te levar longe dessa condição de julgar’”. A faixa fecha o repertório de Tempo dos Sonhos, que está permitindo que o músico possa se entregar, com tempo, aos seus sonhos e apresentar os seus talentos como artista solo.

por Chris Fuscaldo
Jornalista e autora dos livros Discobiografia Legionária e Discobiografia Mutante

Ouça Tempo dos Sonhos: https://ffm.to/ejzvdor

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