Fresno

O Outro Lado da Porta é tudo que fica fora de casa, é tudo que nos distancia do conforto do lar e da segurança das quatro paredes. A banda FRESNO saiu da sua casa, Porto Alegre, rumo a São Paulo em meados de 2006, mas não foi uma tentativa desesperada de mendigar atenção, público ou uma meia dúzia de trocados. O que todos sabem é que a Fresno é e sempre foi um fenômeno cultural moderno de marketing virtual de guerrilha, mesmo que isso tenha sido "meio" sem querer.

O "meio" brota entre aspas porque é inegável o fato de que a banda, formada por Lucas Silveira (vocais, guitarra e teclados), Rodrigo Tavares (baixo e vocais), Gustavo Mantovani (guitarra) e Bell Ruschel (bateria), domina como poucas a arte de usar do habitat eletrônico e todas as suas ferramentas para fazer um barulhinho bom em meio à gritaria desenfreada de pseudo-salvações do rock, pseudo-grandes promessas e pseudo-movimentos de vanguarda. Avessos a tudo isso, construíram, ao longo de seus quase 10 anos de estrada, uma carreira consistente, com números impressionantes e um público fervoroso em todo e qualquer canto do país.

Assistir ao Outro Lado da Porta consiste em despir a banda de todos os predicados que público e crítica pregaram sobre o nome Fresno como post-its em um enorme mural. Mesmo alvejada por definições superficiais, mal-intencionadas e preguiçosas durante toda a sua carreira, o que se vê na tela são quatro jovens que driblam as críticas com a maestria de um Mané Garrincha, mas sem vergonha de mostrar que seus joelhos colecionam cicatrizes. No entanto, isso não é um incentivo à complacência, e sim um singelo apelo de uma banda que quer ser ouvida, antes de qualquer coisa.

E o que se ouve em O Outro Lado da Porta é uma Fresno já calejada pela extensa turnê de divulgação de Redenção (2008), desfilando seus hits e lados B numa pegada bem mais pesada que a do disco, mostrando que, mesmo quando navega pelos seus mares mais calmos, ela não perde sua essência rock, destilando influências que abrangem pelo menos as últimas duas décadas da música, com momentos que lembram um Nirvana de In Utero, passando por guitarreiras que remetem à fase mais nervosa de bandas como Radiohead e Smashing Pumpkins. Abrindo as portas de seu estúdio, como se estivéssemos em um caprichado ensaio aberto ao público, vê-se a banda imersa em seu próprio universo, criando densas atmosferas, mesclando peso e delicadeza ao longo das 15 músicas que compõem o DVD. No entanto, a banda tem seus momentos mais brilhantes quando alia às suas guitarras uma parede de programações eletrônicas, como em "Milonga", a música preferida dos fãs, um épico de oito minutos com três diferentes suítes que narra a história de um casal recém separado numa noite de revival, enquanto mutuamente se perguntam por que você insiste em dizer que ainda existe vida sem você?

A banda se reserva o direito de brindar os fãs mais antigos com releituras de músicas de seus primeiros discos independentes, como "O Gelo", "Impossibilidades" e uma intensa performance de "Stonehenge", música do primeiro disco, de 2003, que consagra uma fórmula não muito usual de se compor música como se esta fosse um filme que se constrói lentamente, cena por cena, camada por camada, culminando com um catártico clímax final.

Não podiam faltar "Quebre as Correntes", "Polo", "Alguém Que te faz Sorrir" e "Uma Música", os hits radiofônicos da banda, que a fizeram figurar entre as mais tocadas nas FMs brasileiras em 2008, bem como "Desde Quando Você Se Foi", o novo single.

A lente de Daniel Ferro, um velho amigo dos integrantes, captura depoimentos contundentes de uma banda que é sempre perguntada sobre as mesmas coisas e não encontra espaço na mídia para falar do que realmente importa: suas músicas. Nesses trechos de entrevistas, que se inserem entre os blocos musicais, os integrantes falam tudo o que pensam numa bolada só, descrevem a vida do outro lado da porta, rebatem críticas, reclamam, mas também contemplam o apogeu que vivem, falam de metas, sonhos e ambições.

O mundo lá fora pode ser frio, chuvoso, distante e etéreo, mas é justamente no Outro Lado da Porta que a Fresno encontrou seu lar.

por Maxwell Dantas, junho/2009

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