Gustavo Brigatti: O Jekyll fechou e a Cidade Baixa agoniza

Gustavo Brigatti, jornalista do Grupo RBS que escreve toda quinta-feira no Segundo Caderno de Zero Hora e no Blog Remix, escreveu um excelente texto sobre a casa Dr. Jekyll e sobre a decadência do bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre/RS, em seu blog. Confira o texto:

Não me lembro da primeira vez que fui ao Dr. Jekyll, mas acho que foi minha amiga Janaína que me apresentou a casa. Contam que em sua origem, o bar era frequentado por um público bem diferente daquele que eu conheci em sua última formação, a de reduto da produção alternativa de Porto Alegre. Pelo naco de palco em frente a uma das escadas, ouvi algumas das melhores bandas da cidade, e pelo seu corredor, fiz amigos que estão entre os melhores da minha vida. Por isso, quando fui procurar no site oficial alguma atração para botar na coluna desta quinta-feira, tomei o choque de saber que o bar já não existia mais _ ou, pelo menos, não como eu o conheci.

Eu já havia notado a retirada do letreiro no final de semana, mas vocês sabem como funciona um coração underground, ele não se liga em fachada. Não importa letreiro, pintura, porta, janela ou teto desde que o espírito permaneça e se faça ruidoso. Mas o Jekyll tinha mesmo se dado sumiço desde meados de agosto. Vai soar piegas e até patético, mas me bateu um misto de culpa e raiva por não ter sabido disso antes. Quer dizer, onde eu estava quando isso aconteceu? Poderia ter feito algo? Haveria, enfim, algo a ser feito para evitar o fechamento de mais um espaço onde se podia fazer um barulho honesto, onde valia a arte em detrimento da etiqueta da roupa ou da localização do piercing?

Ainda meio abalado, liguei para o Che Wodarski, gerente do Jekyll. Esperava um sujeito cheio de amargor e revolta, que reclamaria até o infinito e apontaria milhares de culpados _ incluindo eu. Que nada. O desabafo do Che era o mesmo que eu venho ensaiando há um tempo para colocar aqui. A Cidade Baixa, sitiada pela marginalidade e esquecida pelo poder público, já não oferece a mesma segurança de antes. Por isso, quando uma onda de arrastões começou a cercar o Jekyll, decidiu-se por fechar de vez as portas e procurar um outro lugar. Até o final do ano, Che espera que o bom doutor volte a dar expediente _ com a mesma proposta e ambiente _ num consultório em um bairro menos pior.

Quem tem estabelecimento na Cidade Baixa sabe que não há clientela que resista ser sucessivamente achacada por flanelinhas, pedintes, moradores de rua e bandidos de fato. Isso não é de agora e também afeta quem mora lá. Quando me mudei para Porto Alegre, o que mais me diziam era que a Cidade Baixa era o grande refúgio boêmio da Capital, lugar onde haviam os melhores bares e para onde eu deveria estabelecer uma base _ além do mais, era perto do trabalho. Hoje, o que eu mais quero é sair dela e ir para qualquer outra paragem.

Não há tesão pela noite que resista ao frio na barriga quando se sai de casa na certeza de ser extorquido por um vagabundo trincado de crack numa esquina qualquer. Ou ter que ficar desviando de lixo revirado por toda a calçada _ que também serve de banheiro público. Tente caminhar pelo quadrilátero formado pela Lima e Silva, Venâncio Aires, República e João Alfredo depois das 21h de quinta a domingo para sentir o drama.  E não me levem a mal, eu adoro um ambiente meio selvagem (respeitem meus coturnos, pombas), mas é diferente de insegurança e insalubridade.

Com a saída do Jekyll, vai cada vez pior a Cidade Baixa. E vai cada vez pior Porto Alegre. RSmelhoremtudo mesmo.

Para ler este texto ou outros posts do jornalista, acesse o blog REMIX clicando aqui ou clicando na fonte relacionada abaixo.

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