Lipstick Jungle mistura rock com performance drag e mostra que Edu K continua servindo subversão realness

Edu K / Fábio Alt

Edu K não é afeito a regras. Mas via de regra, é tão dedicado a burlar paradigmas que não deixa intactos nem os moldes que ele mesmo cria. Símbolo nacional das fusões, infusões e confusões entre rock, punk, electro e funk, com passagens orgulhosas pelo brega e um apreço soft metal por pulsões sexuais, o compositor, produtor e performer extraordinaire é coerente na incoerência. Em seu mais novo EP – Lipstick Jungle, lançado na sexta-feira 15 de setembro – o gaúcho Eduardo Dorneles mantém a própria tradição de não manter nenhuma, e apresenta um glam pós Marilyn Manson com genderfuck elevado à máxima potência. Oooh, gurl!

Em 1985, com a então pouco conhecida DeFalla, Edu foi alçado à cena nacional via coletânea clássica e de título autoexplicativo Rock Grande do Sul. Nos anos seguintes a banda consolidou seu caráter ousado com apresentações intrépidas envolvendo cross-dressing (e as vezes no dressing at all), destemidamente oferecendo ao público suas diversas mutações musicais e visuais. Mas foi no ano 2000 que eles fizeram o Brasil descer até o chão, requebrando na batida do Miami pancadão, com o super hit Popozuda Rock´n´Roll. A polêmica amarração de riffs sujinhos à la AC/DC com o beat irresistível do Miami bass via funk carioca deixou perplexos apenas os fãs mais distraídos, pois o total descompromisso com um só gênero musical sempre foi característico do quarteto insolente. É, afinal, bastante manifesto o total descompromisso de Edu K com um só gênero de qualquer coisa.

Des/combinações entre som e imagem sempre compuseram a Edu K Experience, desde DeFalla até sua carreira solo. Vê-lo, tanto quanto ouvi-lo, é recomendável para compreender o valor de sua arte. Filho espiritual de Bowie e RuPaul, Edu K saiu igualzito aos pais. Isso foi bastante graças aos pais carnais, que o apresentaram Dzi Croquettes, Ney Matogrosso e Elke Maravilha quando ele ainda era guri, e achavam natural que o piá já adolescente saísse pelas ruas de Porto Alegre de batom ou meia arrastão, desde que soubesse arcar com as consequências da caretice alheia. E, para Edu, a caretice é alheia. Mas seu acordo inegociável com o desbunde e a boemia nunca significou que o trabalho fosse pouco, ou leviano. Ao contrário: Edu é expert na arte de fundir e difundir universos tidos como opostos, demonstrando que binarismos rígidos e verdades absolutas não existem nem em essência nem em aparência.

Se seus mais de 30 anos de carreira pudessem ser descritos pelo nome de uma banda fictícia, Deboche Mode talvez fosse adequado. Mas não porque suas letras sejam satíricas, ou por que seu som faça escárnio de um ou outro estilo musical, e sim porque sua arte é debochar das estruturas reacionárias das coisas. Ainda que inadvertidamente – afinal suas intenções primordiais são a experimentação, o arrojo, a livre expressão – Edu sempre debochou da intransigência das divisões entre estilos musicais.

A seriedade com que sua arte debocha da diferenciação austera entre gêneros se assemelha às formas com que drag queens debocham da rigidez da ordem social de gênero. Assim, faz todo sentido que a performance drag, que ele vem apresentando especialmente nos shows de lançamento do EP (com seis faixas, incluindo 20Çeduzir, reciclada do EP “Boy Lixo”, de 2015) seja parte intrínseca deste último trabalho.

Lipstick Jungle e o caráter gender bending de suas performances são matéria refrescante, que já nasce fazendo as vezes de bala de menta para o bafo infausto do crescente conservadorismo. O som é eletrizante e a performance é hipnotizante. A diversão? Garantida. Edu K, shantay you stay!

Edu K – Lipstick Jungle EP
1 – Lipstick Jungle (Edu K) 1:40
2 – Pokémon Go (Edu K) 2:42
3 – Dando no Meio (Edu K) 3:30
4 – Rewind (Edu K) 4:40
5 – Sexo & Ceva (Edu K) 3:13
6 – 20Çeduzir (Edu K, Henrique Gerardt, Gus Lanzetta Cicero, Fernando Bordignon, Lucas Andre Gomez Menyou) 3:15
7 – Longe de Ti (Edu K) 4:07

Capa do EP “Lipstick Jungle”, de Edu K / Reprodução

Ficha Técnica:
Edu K: Voz e Guitarra
Z: Baixo
Pedro Petracco: Guitarra e Teclados
Bruno Suman: Bateria
Rod: Guitarra

Produzido por Edu K
Gravado, Mixado e Masterizado em Porto Alegre, no Estúdio Shangri-lá, por Edo Portugal.
Fotos: Fabio Alt
Make Up: Eduarda Britz
Projeto Gráfico: XabLutz e Fabio Alt
Tattoos: Chilli Tattoo e 13 Custom Tattoo
Agradecimentos: Z, Nilo Feijó, Piquet Coelho, Eduardo Branca, Jairo da Rosa Araújo, Anna Clara Pahim Cordeiro, Ro Cortinhas, Fiapo Barth e Casa De Cinema.

Lipstick Jungle é um lançamento de 180 Selo Fonográfico.
Código de Catálogo: 180-D/100

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