Nenhum de Nós: DVD Contos Acústicos de Água e Fogo chega às lojas nesta semana

O novo, e aguardado, DVD da banda Nenhum de Nós, Contos Acústicos de Água e Fogo, chega às lojas nesta semana! Na última segunda-feira, 8, a banda realizou uma Avánt-Première do DVD no GNC do Praia de Belas para jornalistas e convidados. Confira a release do novo trabalho dos caras, escrito por Juarez Fonseca:

O pop, do cinema mudo à psicodelia.

O Nenhum de Nós firmou a tradição de entremear álbuns “normais”, isto é, elétricos, feitos em estúdio, com acústicos ao vivo. A resposta dos fãs sempre foi ótima, os acústicos venderam muito bem desde o primeiro, de 1994, que rendeu também um disco de ouro para a banda. Na carreira, iniciada em 1987, são dez discos de estúdio, um elétrico ao vivo, três acústicos ao vivo (dois com os respectivos DVDs), mais seis coletâneas, superando um milhão de cópias. Poucas bandas brasileiras fizeram tantos discos, com tanta regularidade. Mesmo assim, tradições podem ser quebradas. Com o lançamento de Contos Acústicos de Água e Fogo, a banda ao mesmo tempo quebra e mantém sua tradição, protagoniza um dos mais inventivos projetos audiovisuais já realizados no Brasil e abre novos conceitos para DVDs de música ao vivo.

No meio de 2012, ainda durante a bem-sucedida temporada de lançamento do álbum elétrico Contos de Água e Fogo iniciada um ano antes, Thedy Corrêa, Carlos Stein, Veco Marques, João Vicenti, Sady Homrich e seu produtor Antônio Meira começaram a pensar no próximo trabalho. Estava tudo certo, público fiel e crescente, qualidade musical inquestionável, uma carreira sólida, mas… o que fazer? Mais um acústico ao vivo no Theatro São Pedro, como os outros? Não; ainda que de forma meio difusa, em vez de novamente um show gravado, eles queriam algo diferente, uma excitação nova.

A busca por essa abordagem especial para o novo acústico ao vivo, com o fundamental detalhe de ser concebida para o formato DVD, interligou um circuito que chegaria a Claudio Veríssimo, experiente e arrojado realizador de filmes publicitários e videoclipes musicais. E ele topou o desafio de afirmar com imagens a necessidade do Nenhum de Nós em renovar sua exposição, acrescentando informações inéditas. O resultado é brilhante. Um DVD de música que pode ser visto como um DVD de arte, pois convive o tempo todo com a pintura, o desenho, a fotografia e especialmente, o cinema.

“Quando o artista grava um show, a intenção é transportar quem assiste para dentro do show”, argumenta Thedy, principal letrista da banda e um dos grandes cantores do pop brasileiro. “Com Contos Acústicos de Água e Fogo queríamos levar as pessoas para outros lugares. Queríamos mexer com elas de uma forma sensorial, abrir algumas portas de sua percepção. E o Veríssimo foi muito feliz nisso, assim como Moisés Betim, que deu grande contribuição para a linguagem artística do trabalho com suas pinturas e fotos criando ambientes oníricos.”

Entre outros detalhes, Betim construiu artesanalmente maquetes que, filmadas, ampliadas e manipuladas no computador, se transformam em cenários de surpreendente efeito visual. Em vários momentos do DVD a música dialoga com uma estética de cinema mudo, a partir do ancestral, básico e até psicológico preto-e-branco. Mas também existe muita cor, usada com filtros, granulações e sugestões incomuns, aqui e ali remetendo à plasticidade psicodélica dos anos 60.

Tão bom nas guitarras quanto nos violões de 6 e 12 cordas de náilon e aço, no banjo, no ukulele, na sitar e agora no gu-zheng (espécie de harpa que trouxe da viagem à China em 2011), Veco chama a atenção para outra das preocupações iniciais: evitar o padrão do videoclipe convencional, quase sempre muito fragmentado. “Queríamos uma ideia de calma, sem cortes bruscos, mostrando nossos rostos e nossos instrumentos. As pessoas gostam de ver detalhes dos instrumentos”, diz.

A integração/interação das imagens com a banda é perfeita. Em alguns momentos as imagens (bosque, lago, cidade, trem, estrada, arabescos, figuras geométricas) são projetadas no telão ao fundo e, em outros, projetadas também nos músicos. Aqui, os músicos aparecem recortados, em total fundo branco; ali, quando o cenário é uma casa de brinquedo de verdade, eles estão dentro dela em miniatura. A menção a videoclipe vem a propósito, pois embora o resultado final seja de grande unidade em todos os sentidos, as 15 “faixas” de Contos Acústicos de Água e Fogo também podem ser vistas como 15 clipes, cada um com sua personalidade. Ou seja: mais um diferencial. Nada menos que oito cameramen trabalharam nas gravações.

Piano e violões abrem o DVD com Último Beijo, tocada em meio a lâmpadas translúcidas comuns com efeito incomum. A canção é do álbum Contos de Água e Fogo (2011), do qual saíram outras nove: Outono Outubro, Tu Vicio, Exatamente Igual, Água e Fogo (participação de Duca Leindecker), Um Pouquinho (chacarera com ukulele e bombo legüero), Primavera no Coração, Pequena e Inicio Fim, esta fechando o DVD só com Thedy e o piano de João Vicenti, som e gostas de chuva, um corpo azulado de mulher no telão. Quatro grandes sucessos ganham arranjos novos: Vou Deixar Que Você Se Vá (de Mundo Diablo, 1996, em clima de folk irlandês), Paz e Amor (do disco homônimo, 1998), Julho de 83 (de Histórias Reais Seres Imaginários, 2001), todas presentes em outros acústicos, e Feedback (de Pequeno Universo, 2005, letra de Martha Medeiros). Além de Tu Vicio, com letra em espanhol, a porção platina do Nenhum de Nós se manifesta na balada Crimen (de Gustavo Cerati, da cultuada banda argentina Soda Stereo), com a participação de Jorginho do Trompete. E para completar tem uma inédita, Aquela Estação, country-folk como a turma gosta, marcado por acordeom, três violões e banjo, mais o ator Zé Vitor Castiel recitando parte da letra (“Então ele embarcou naquele trem, com o bolso vazio, o coração partido…”).

Sempre usando seu chapéu gaúcho, o pianista, tecladista e acordeonista João Vicenti fala das gravações: “Fizemos tudo direto, ao vivo mesmo, tocamos como nos shows, respirando juntos o tempo todo, o que não é fácil no clima de um estúdio”. O mesmo podem dizer o consistente e bem-humorado baterista Sady Homrich e o baixista convidado Estevão Camargo, que também participa dos vocais. Com seus violões, guitarras e o olhar sempre atento e calmo, Carlão Stein parece um dos pontos-chave da consistência mais íntima do Nenhum de Nós como um grupo de companheiros.

Contos Acústicos de Água e Fogo mostra uma banda excepcionalmente afiada e afinada.

Soa estranho falar em maturidade aos 27 anos de estrada, mas neste trabalho o público pode constatar isso como nunca antes. Está tudo explícito na tela à frente, em planos gerais, closes, sobreposição de imagens, trocas de instrumentos, feeling, verdade e grande competência musical. Até vale salientar que das bandas brasileiras dos anos 1980 o Nenhum de Nós é a única, ao lado dos Paralamas do Sucesso, que nunca trocou nem perdeu integrantes.

Mais low-profile dos cinco, Carlão gosta de observar os amigos no quotidiano e no palco e vai registrando na memória as viagens, situações inusitadas, shows marcantes, tanta coisa.

Nossa vida tem muitas coincidências bacanas, algumas até inacreditáveis, que nos fizeram chegar até aqui. Às vezes me imagino escrevendo um livro sobre tudo isso, sobre nossos shows, nossas viagens, sobre a nossa época.” Passados tantos anos, a significativa marca do Nenhum de Nós na história do rock brasileiro nem se discute. E mesmo com tanto sucesso, a banda investe em sua música como se estivesse começando. Dizer isso parece chavão, só que é a pura verdade.

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