O Triângulo das Bermudas da Cultura

Duda Calvin / Igor Pires

Ele existe senhores! Não foi criado por decreto, nós o criamos por nossos hábitos, por nossas necessidades e agora estamos presos a ele. Porto Alegre tem um triângulo das bermudas da cultura onde tudo acontece, tudo se cria e tudo morre lá, tal qual o famoso triângulo das bermudas do Atlântico, situado entre a Flórida, Porto Rico e Ilhas Bermudas, o nosso também tem três pontos que interligados o formam;os Bairros Bomfim, Cidade Baixa e o Centro.

Nesse triângulo, todos os shows dos artistas da nossa cidade hoje estão lá concentrados, diferentemente dos anos 1990 onde se descentralizava os eventos e se faziam shows ao ar livre nos diferentes bairros da cidade. Hoje, os poucos eventos deste porte estão centrados nas cercanias destes 3 bairros.

Pois bem, isto acarreta um problema gigantesco em nossa cidade, estes bairros criam os seus artistas, consomem a sua arte, mas estes artistas não conseguem sair destes bairros para tocar em outros bairros afastados deste triângulo, e você se pergunta: Ok, mas qual o problema disso? Grande! Enquanto nos anos 1990 as bandas foram conhecidas por toda a cidade e depois lançados para todo o RS, de 2000 para cá com a concentração de eventos neste triângulo os novos artistas enfrentam um problema ao tentar eventos fora deste local, não são conhecidos pelo restante de Porto Alegre, muito menos do Estado, e não tocam nos eventos públicos ao ar livre nos bairros afastados deste triângulo e nem em outros municípios. Assim, não tocando não formam um público mais amplo e não são contratados pelas casas, bares, locais que fazem eventos culturais localizados fora do triângulo.

Mas não seria mais fácil as pessoas se deslocarem dos bairros mais afastados para dentro do triângulo? Em parte, vejamos um show que começa às 22:00 horas em alguns bares e casas de show, via de regra vai até altas horas, esta pessoa trabalha ou estuda no outro dia e não está favorecido pelo transporte público pós-horário de término destes shows, ou seja, não vai.

Os eventos ao ar livre tem que respeitar o horário de término de evento Público que é 22:00 horas, existe uma maior resposta popular, sem dúvida, mas não contempla toda a cidade, pelas distâncias, pelo transporte, para chegar é relativamente fácil, mas não há uma organização de transporte para sair rápido e seguro, sem causar congestionamentos, estes eventos nestes locais atendem as necessidades destes moradores que vivem nestes bairros, que podem ir a pé, que não precisam de grandes locomoções para presenciar estes eventos, mesmo um evento público que ocorre no Anfiteatro pôr do Sol, terá mais moradores do Centro, do Bonfim e da Cidade baixa, que moradores do Rubem Berta que tem mais habitantes que estes 3 bairros somados, mas que enfrentam uma longa locomoção até chegar a este evento.

E qual a solução? Mais eventos com os artistas da nossa cidade pelos bairros de POA. Recentemente ouvi da própria prefeitura de POA a Frase: Mas os nossos projetos de descentralização organizam eventos com os artistas locais de cada bairro, e tem um bom público! Outro engano, se não mesclar, os artistas de outros bairros, artistas iniciantes, artistas mais consagrados, estaremos trabalhando a arte como gueto, só com artistas locais, e que não tocarão no bairro do lado, por exemplo, pois somente se apresentam no seu bairro, isso está provado, não sustenta uma cadeia produtiva da cultura, ou no jargão, não faz o músico girar na cidade e ser conhecido por todos.

Vamos aos números:

População dos Bairros do Triângulo das Bermudas da Cultura
Centro Histórico – 39.154
Cidade Baixa – 16.522
Bonfim – 11.630
Total: 67.306 Habitantes

Outros Bairros populosos de POA (Habitantes)
Restinga – 51.569
Rubem Berta – 87.367
Sarandi – 59.707
Partenon – 45.768
População Total de Porto Alegre: 1.409.351

Debruçando-nos sob esses dados, percebe-se que chegamos ao percentual da População de Porto Alegre atendida por eventos de cultura semanais que é de 4,77%.

O orçamento participativo (OP) destinou cerca de 4 Milhões de reais a Cultura em 2015 em POA, segundo o Coordenador da descentralização da Cultura da Secretaria de Cultura de POA Leonardo Maricato em entrevista ao Programa Roda de Chimas na OctoTV da RBS TV, este dinheiro está sendo aplicado nas 17 oficinas que se encontram nas regiões do Orçamento participativo, ok, faz com que o artista local se apresente pra sua comunidade, mas este artista não gira pelas outras regiões do OP, não mostra seu trabalho para fora de seu eixo, ou seja, o artista não seu sai de seu gueto de influência, não faz com que a cidade, a grande cidade que quer ver seus artistas surgirem de suas ruas, consiga se enxergar como formadora de bons artistas, de trabalhos de qualidade, falando de sua cidade, como estes artistas não surgem, a população não os conhece porque eles não tocam nos outros bairros, de exportadores de cultura, somo hoje, Importadores de arte feita fora do nosso estado, e notamos isso quando falamos dos artistas que surgiram nos anos 80 e sobretudo no final dos anos 90, que ainda atraem um grande público, mas que começaram tocando em eventos ao ar livre, nos diversos bairros da nossa cidade, precisamos URGENTEMENTE rever isso.

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