Os Brasas em CD

Banda gaúcha de rock tenta a sorte fora do Estado e faz sucesso a ponto de seus integrantes se estabelecerem como músicos no centro do país. Essa trilha, seguida por nomes como Bixo da Seda nos anos 1970, Engenheiros do Hawaii nos 1980 e Cachorro Grande nos 2000, teve um pioneiro: o grupo Os Brasas – cujo único LP, lançado em 1968, virou cult e agora ganha reedição em CD. Em ação entre 1965 e 1969, os Brasas foram uma das bandas gaúchas de mais destaque no cenário da Jovem Guarda. Se não tiveram o sucesso de um Roberto Carlos ou um Eduardo Araújo, conseguiram seguir em atividade, mesmo depois do fim do grupo. O guitarrista Luís Vagner, por exemplo, virou ícone do samba rock, e o baixista Franco Scornavacca é empresário da dupla Zezé di Camargo & Luciano e dos filhos Kiko, Leandro e Bruno, do KLB (leia mais no quadro da página 5). A jornada dos Brasas começa na metade dos anos 1960, quando o rock de Beatles, Rolling Stones e Kinks reina em Porto Alegre. Em quase todas as garagens da cidade, jovens ensaiam covers dos ídolos, em guitarras encomendadas na antiga loja Mil Sons, no bairro Partenon, e usadas ao vivo em bailes em bairros como Lindoia, Teresópolis e Navegantes. Entre grupos como Os Cleans e Os Clevers, Os Brasas adotaram seu nome no final de 1965, inspirados por uma gíria da época. Nas maratonas de bailes, que podiam incluir apresentações em três ou quatro clubes em um mesmo sábado, o quarteto – com os guitarristas Luís Vagner e Anyres Rodrigues, o baterista Edson da Rosa (Edinho) e o baixista Franco – tocava Beatles e Stones. A grande oportunidade veio em 1966, quando eles abriram um show coletivo no Ginásio da Brigada Militar reunindo a cúpula da Jovem Guarda, com shows de Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléa, Jerry Adriani e outros. – Muitos grupos da época eram instrumentais – relembra Anyres. – Quando perceberam que tocávamos e cantávamos, os empresários dos artistas vieram nos ver. Em uma quinta-feira de julho daquele ano, os Brasas, então com idades entre 17 e 18 anos, desembarcaram em São Paulo. Logo na primeira noite, visitaram a TV Excelsior, que exibia o programa Juventude e Ternura. Tiveram sorte: foram convidados a voltar na semana seguinte para tocar na atração, apresentada por Wanderley Cardoso e Rosemary. Depois, foram a uma das principais casas de shows de rock da época, o Saloon, na Rua Augusta – e já arranjaram trabalho. – Demos uma canja e o pessoal do bar gostou. A banda que estava tocando, Os Impossíveis, ia fazer uma turnê, e fomos convidados para substituí-los – conta Anyres. Daí em diante, os Brasas se espalharam. Além de tocar no Saloon de terça a domingo, assinaram contrato com a Excelsior para se apresentarem no Juventude e Ternura às quintas e no Linha de Frente, da dupla Os Vips, aos domingos. Entre os artistas que conheceram, estava um trio que já fazia barulho sob o nome Os Mutantes. – O Sérgio (Dias), o Arnaldo (Baptista) e a Rita (Lee) iam lá em casa pedir aparelhos emprestados – lembra Vagner. Franco lembra de os Brasas, mesmo contratados pela Excelsior, terem aceitado convites eventuais para tocar no programa Jovem Guarda, da concorrente Record – apresentado por Roberto, Erasmo e Wanderléa, era a principal vitrine da música jovem. A convite de Carlos Imperial, os Brasas ainda passaram um tempo tocando às quartas-feiras na TV Tupi carioca. Nas idas ao Rio, dormiam no Solar da Fossa, prédio onde moraram figuras como Tim Maia e Hyldon (cuja história está contada no livro Solar da Fossa, de Toninho Vaz). E não ficavam cansados da rotina agitada. – A gente queria cigarro, mulher e uma refeição por dia. E guitarra e microfone – diz Anyres. Mesmo tendo lançado um LP em 1968, o quarteto não resistiu a um malfadado 1969. Um desgaste foi a perda das gravações do segundo LP, apagadas por engano no estúdio da gravadora Continental. A banda soube do incidente ao voltar de uma desastrada turnê pelo Sul, em que os amplificadores saíram queimados de um show em Curitiba. O grupo decidiu separar-se – hoje, dizem que eram jovens demais. – A gente não tinha isso de business. Uma vez, perdemos um programa de TV por causa de uma calça que o Franco e Anyres queriam usar. Outra vez, íamos fazer um filme, mas foram dois integrantes para um estúdio e dois para o outro – conta Vagner, de bom humor. Banda gaúcha que fez sucesso nos anos 1960 tem seu único disco relançado em CD Além do sucesso na TV, os Brasas também se tornaram uma ativa banda de estúdio em São Paulo nos anos 1960. Foi decisivo para isso o convite para o grupo integrar-se à Banda Jovem do maestro Edmundo Peruzzi – que, entre outros músicos, acompanhava o cantor Eduardo Araújo. Logo os gaúchos estavam gravando com artistas como Sérgio Reis, Demetrius e Wanderley Cardoso – eu vivia mais no estúdio do que em casa, conta o baixista Franco. A chance de gravar um compacto veio em 1967. A estreia incluiu as músicas Lutamos para Viver e Vivo a Sofrer (versão do hit italiano Piange com Me). Outros compactos viriam, incluindo uma leitura rock para Mulher Rendeira, mas a maior repercussão veio com a A Distância, versão de Oriental Sadness, dos Hollies. O sucesso do compacto abriu caminho para a banda gravar seu LP em 1968. Entre as 12 canções, estão versões – como a escrachada Pancho Lopez, gravada por Trini Lopez – e parcerias de Luís Vagner com Tom Gomes, como a balada Sou Triste por te Amar e o rock pesado Não Vá me Deixar. Com influências do rock e do bolero e em sintonia com o romantismo ingênuo então vigente, os Brasas impressionam pelos elaborados arranjos de guitarras e vozes, com Franco e Anyres respondendo pela maior parte dos vocais principais. Não chega a ser um álbum revolucionário, mas se destaca entre outros títulos da época e, injustamente, só agora sai em CD. – É legal verificar que os Brasas pescaram algumas pérolas e também gravaram coisas próprias. Naqueles tempos, isso era muito raro: tanto as bandas comporem como terem a chance de colocar isso em disco – diz o pesquisador Marcelo Fróes, produtor da série de reedições Ídolos da Jovem Guarda, que inclui o CD dos Brasas.

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