Projeto relança Aqui, disco dos Almôndegas

O fotógrafo Tuyo caminhava pelo Bom Fim, em 1975, quando algo no passeio público lhe chamou a atenção. No cimento fresco de uma calçada na Rua Barros Cassal, alguém havia escrito a palavra AQUI. Só isso. Encantado, Tuyo providenciou uma foto do rabisco e mostrou para os amigos da banda Almôndegas. A trupe gostou. O retrato foi parar dentro do disco, e Aqui virou o nome do segundo álbum do grupo, responsável por redefinir os rumos do quinteto gaúcho – e que ganha agora reedição inédita em CD pela Warner Music.

Os Almôndegas, compostos inicialmente por Kleiton, Kledir, Quico Castro Neves, Pery Souza e Gilnei Silveira, já vinham de um disco de relativo sucesso, homônimo e lançado no início daquele 1975. A bolachona, gravada às pressas e sem muito cuidado em São Paulo, vendeu bem e obrigou a gravadora a olhar de maneira diferente para a banda. Com mais recursos, o grupo conseguiu avançar em produção e ousadia.

– Vivíamos a Tropicália, os preconceitos musicais estavam caindo. Quer dizer, queríamos fazer uma música brasileira, mas sem esquecer da pegada rock que tanto gostávamos. Era essa vontade de misturar que nos movia – relata Kledir.

A mistura que consta em Aqui é visível. A foto do concreto no encarte do LP contrasta com a bucólica aquarela da vaquinha pastando dentro de um violão, cortesia do artista plástico Pedro Pires. Nas faixas, o trabalho antes onipresente dos violões divide espaço com o baixo de João Baptista, que entrara no lugar de Pery Souza. Não foi propriamente uma guinada no som dos Almôndegas, mas era nítido que um novo caminho se abriu.

Aqui continha a música Canção da Meia Noite, que apresentou os gaúchos para o resto do país ao ser incluída na novela Saramandaia (1976). Em seguida, Fafá de Belém regravou Haragana.

– A saída de Porto Alegre foi inevitável, mas também desafiadora. Não tínhamos nenhuma experiência, não sabíamos como lidar com gravadora, mercado, showbusiness, nada. Tanto que depois de batermos cabeça com os Almôndegas, administrar a dupla foi fácil – avalia Kleiton, referindo-se à parceria que construiu com o irmão Kledir a partir do fim da banda, em 1979.

O relançamento de Aqui faz parte de um projeto maior da Warner Music de relançamento de preciosidades da música popular brasileira que nunca viram a luz em formato digital. Capitaneada pelo pesquisador e produtor Marcelo Fróes, do selo Discobertas, a iniciativa lançará ainda álbuns de Guilherme Arantes, A Cor do Som e O Terço – todos remasterizados e com as artes originais.

No caso dos Almôndegas, a reedição de Aqui ainda corrige um erro histórico: segundo Kleiton, o encarte original não trazia o nome de Quico, autor de Haragana. Justiça feita, quem sabe a trupe não se reúne novamente?

– Vontade não falta – revela Kledir.

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