Sentido Inverso

Na minha atividade como jornalista, certa vez recebi um release de uma banda que dizia algo como “não somos nem queremos ser a salvação do rock”. Na época achei apenas engraçadinho, já que toda a crítica mundial se deleitava com a chegada do The Strokes, então tida como essa “salvação”, mas depois passei a pensar sobre a questão. Será mesmo que o rock um dia precisou ser salvo? Particularmente acho que o rock se perdeu quando passou a falar de amor. Enquanto ele era apenas diversão, estaria não salvo, mas a salvo dos questionamentos interiores de quem o cantava. E o rock virou um verdadeiro inferno de possibilidades, ainda bem, porque ele nasceu pra isso. Vindo do blues como ele veio, tinha que guardar essa pontinha de sofrimento, de angustia, do tom questionador. Isso foi só uma introdução para dizer que falar de amor em rock é muito difícil. É um sofrimento duplo: um pela exposição poética, geralmente autobiográfica; outro, pela visceralidade que a música vai exigindo, até mesmo numa simples balada de três notas. A banda que lhes apresento, Sentido Inverso, com certeza não veio pra salvar o rock; nem pra ser a queridinha do momento estampando capas de revistas teen, dando receitas de como “ficar” com as meninas de sua galera; não se enfiou em terninhos justos e assumiu uma atitude blasé; não se fez de engraçadinha para ganhar a simpatia dos programas de TV; não lançou moda em cabelos desgrenhados; e não fez qualquer mistura mirabolante em busca de uma impossível formula inédita de se fazer rock. A Sentido Inverso abre seu caminho com um primeiro disco, no mínimo, verdadeiro. Um pouco de história não faz mal a ninguém Não há boa banda (e até as ruins), que não tenha nascido numa garagem, no quarto de alguém, no recreio da escola ou faculdade e, claro, que não tenha nascido para tocar, primeiro, músicas dos outros. É o ritual de fogo de todas. A Sentido Inverso nasceu em 1999 como Quadro Vivo, comandada pelos irmãos Giovani e Fernando Quadros, bateria e guitarra e voz, respectivamente. Em 2005 resolveram mudar a proposta e o nome da banda. Chamam Daniel Olsson para a outra guitarra e, um ano depois, Rodrigo Silveira assume o contrabaixo. Nascem então a Sentido Inverso. Sem esconder as influencias de nomes como R.E.M, U2 e Legião Urbana, apostam também no chamado pop rock pós-punk. O disco Os preparativos para o primeiro registro da banda tiveram início ainda em 2006 e as gravações aconteceram no estúdio Music Box, com a assinatura de Alexandre Birck (Graforréia Xilarmônica e DeFalla) na gravação e masterização do trabalho, além de Fabiano Penna na mixagem. O álbum abre com Explica, balada rocker onde a poesia de Fernando Quadros, principal compositor, indo direto ao ponto com versos como me explica a sensação / de não mandar no coração, não deixa dúvidas do tom confessional do trabalho. Em “…” (assim, mesmo, reticências), um desabafo de uma relação em que não se consegue medir a intensidade, como aquela música que causa arrepio, que traz lembranças que se quer e não quer ter, como a eterna inquietude do ser humano, ampliada em (Re)Começo, em Em Paz e que encontra eco em Amor por um Triz, com refrão pesado da dobradinha teclado/guitarra. Mudando completamente o sentido (sem trocadilhos), Saída chega mais pop do que qualquer outra, com direito a vocal tirado de um megafone; Em Cada Parte do Céu pode até lembrar Legião (Fernando tem um registro vocal semelhante ao de Renato Russo), mas tem nome e sobrenome e endereço certo: foi feita para os corações inquietos. Fernando assina todas as outras composições do álbum (Me Deixe e Até Mais), com exceção de Naufrágos, Saída e Outra Noite, que levam a marca do guitarrista Daniel Olsson, instrumentista econômico, que sabe usar a parafernália de efeitos e que não faz uso de solos intermináveis, tudo na medida certa, dialogando com a precisão da bateria e do baixo e com as incursões de Fernando no teclado. O tom confessional da Sentido Inverso nos pega pelo que há de mais simples na música: vai direto ao coração, sem atravessadores, sem clichês do romantismo raso, da rima “amor com flor”; vai direto pelas vias certas, sem querer salvar o rock, sem dar novo sentido ao que não tem outro, provando que falar de amor também é dom de roqueiro. por Daniel Soares

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