Superguidis lança seu terceiro CD

Todo mundo conhece a ladainha. A banda estoura no primeiro disco, se consolida – ou derrapa – no segundo e “amadurece” no terceiro. Problema é que esse “amadurecimento”, quando muito, se encerra num experimentalismo canhestro que não engana ninguém. Poucos entendem, como entenderam os Superguidis, que essa transição não existe sem dor, medo e angústia. Bem-vindos ao lado escuro dos Superguidis.

No apagar das luzes de uma adolescência que nos dias de hoje se estende até os 30 anos, os Guidis não são mais os guris que gravaram O Véio Máximo em 2003, colocando Guaíba no mapa do rock brasileiro – na qualidade de cidade-irmã de Seattle. Andrio Maquenzi (voz e guitarra), Lucas Pocamacha (guitarra), Marco Pecker (bateria) e Diogo Macueidi (baixo) continuam tendo o som notabilizado por Nirvana e afins entre suas maiores referências, mas é marcante o aumento do peso – instrumental e espiritual – que esse terceiro disco (batizado simplesmente de Superguidis) carrega. Como se o deboche quase juvenil de Dave Grohl, ex-Nirvana e hoje Foo Fighters, desse lugar ao fatalismo castrador de Layne Staley, a finada voz do Alice in Chains, aprisionado numa gaiola de cordas magnetizadas e palhetadas com toda força e rapidez.

– Acho que é uma tendência natural, um novo caminho que se abre – arrisca Lucas.

Caminho que pode ter tido como irônico farol o Pink Floyd de The Dark Side of the Moon. O disco-tratado que decompõe a sociedade inglesa, suas idiossincrasias e contradições, na virada dos anos 1960 para os 70, acabou por inspirar os Guidis a levar ao divã toda a sua geração. É dessa massa, que agora bate (ou está perto de bater) as três décadas de vida, sem modelos, sem regras claras, vivendo das próprias incertezas, que o “disco do triângulo” (outra referência a Dark Side) trata.

Apesar de não ter sido composto como um trabalho conceitual ou coisa que o valha, a sintonia entre as faixas é fina o bastante para construir um personagem que transcende as linhas do encarte e convida para uma autoanálise. Esse sujeito começa a desconfiar que a festa acabou, as luzes se apagaram e tudo o que resta é um estrobo histérico que mais atrapalha que ajuda.

Por isso tateia no escuro, alternando explosões de raiva (Não Fosse o Bom Humor, Quando se É Vidraça), momentos em que joga a toalha e abre uma garrafa para se consolar (Roger Waters), busca sentido em qualquer coisa (Visão Além do Alcance), briga consigo mesmo (As Camisetas), quer ser autossuficiente (Casablanca), mas se mostra acuado e frágil (De Mudança). Por fim, consola-se em saber que não está sozinho (Aos Meus Amigos).

– Procuramos um diálogo com quem ouve a gente, que passa pelas mesmas coisas. Não tem como fugir disso – explica Andrio.

Obscuro, tétrico e flertando abertamente com o metal, o disco vai de encontro a qualquer fórmula fácil de hit de FM e a ditadura do terninho do rock gaúcho. Em sua integridade, o “disco do triângulo” não deixa espaço para a felicidade instantânea prometida por um novo amor, o colo dos pais, drogas ou baladas, lugar-comum supremo da produção pop atual.

Isso tudo – os Guidis deixam claro – passou e não faz mais diferença. Respostas? “O que dá pra fazer, é esperar passar” é o máximo que eles oferecem. E que ninguém mais duvide que amadurecer dói.

Disco vaza na internet e vira hit no Twitter

Tecnicamente, o terceiro CD dos Superguidis é primoroso, o que justifica a longa espera. Foi gravado entre julho de 2008 e janeiro de 2009 em Brasília, com produção do ex-Plebe Rude Philippe Seabra, e mixado nos EUA. Estava pronto para ser lançado no final do ano passado – movimento adiado para não comprometer as vendas.

– É sabido que discos lançados nos últimos meses do ano não ganham a mesma atenção que no começo, já está todo mundo saturado. Por isso decidimos segurar – pontua Fernando Rosa, da Senhor F Disco, selo responsável pelo lançamento do CD junto com a Monstro Discos.

O que eles não contavam era que o disco vazasse para a internet uma semana antes do seu debut oficial. A notícia de que o novo CD dos Superguidis estava “disponível” para download começou a se espalhar pela rede de microblogs Twitter – quase sempre acompanhada de um link para baixar o conteúdo.

Na quinta-feira, o nome da banda encabeçava os Trending Topics, espécie de escala que mede a popularidade de determinados termos/assuntos. Sinal de que os Guidis vão virar mainstream e tocar no Faustão?

– Ainda somos uma banda independente e feliz de ir, aos poucos, construindo seu caminho. Nem artistas somos. O máximo que eu faço é botar as loucuras da cabeça do Andrio no meu computador – graceja Lucas.

O CD físico, com o belo encarte e faixas em alta definição, sai na próxima semana. E em formato duplo, com o registro acústico que o grupo fez no extinto Cultura Rock Club, na Capital, no meio de 2009. Mais do que um extra, o disco traz hits antigos (Malevolosidade, O Banana), covers (Retardado, dos parceiros da Prozak), além de números do próprio “disco do triângulo” em versão desplugada.

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