THE DIRT- MÖTLEY CRÜE (Resenha)

Nem vamos falar sobre possíveis spoilers e coisas do tipo, pois se você está lendo esse texto, não se preocupe, tudo o que é falado aqui, é tudo aquilo que você já sabe da banda, o filme não tentou ir mais fundo, ou muito além, do que o geral que já se fala sempre em rodas de conversa sobre a banda. O filme THE DIRT, baseado na biografia do MÖTLEY CRÜE chegou com certa expectativa na NETFLIX. Bom, de cara, já posso dizer que tudo teria sido bem melhor aproveitado se fosse uma série, e não um filme que correu depressa, tentando passar uma história maluca, rica e cheia de altos e baixos, que em um único filme não pode ser tão bem abordado. Ficou claro que o filme não tentou ir em um nicho, ele se comportou para que qualquer um sentasse lá e pudesse ver, e aí temos um grande erro. Para quem conhece a banda, o filme é ok. Para quem conhece tudo mais fundo ainda, vai bater no mesmo botão, de que uma série teria sido a melhor escolha. E para quem nunca ouviu falar dos caras, ainda mais por aqui, no Brasil, o filme vai ser uma nova versão (só que muito melhor) de “Detroit Rock City”, pateticamente reprisado no SBT pelo “Cinema Em Casa”.

Muitas referências legais, ambientação de grife, nomes de bandas nos letreiros das casas de shows, vimos alguns personagens ganharem vida, como os rapazes do HANOI ROCKS (outra ótima banda não muito bem aproveitada pela grande massa), OZZY OSBOURNE, DAVID LEE ROCK (do VAN HALEN) e até uma figura do GUNS N’ ROSES, quase que passando despercebida. Mas todo o mérito e de tirar o chapéu, para a produção de figurino e toda a ambientação que vimos, quase que impecável, ou intocável. Tudo foi muito bem feito, muito bem pesando, ou “copiado”, como vimos ao final da película. O ator que conseguiu passar melhor quem ele era, foi quem deu vida a TOMMY LEE (baterista). E isso, volta a cair no lance de que quem não conhece os caras, vai achar tudo muito rápido, mas visualmente falando, foi o melhor personagem, e com todas suas fases. VINCE NEIL (vocalista) também ficou muito bem caracterizado, e o grande momento do acidente, finalmente ganhou a atenção que merecia. Todo mundo que sabe do MÖTLEY CRÜE, sabe do acidente, mas é um assunto tão batido, que estranhamente se torna banal. Como se o METALLICA ganhasse seu filme, e quando JAMES HETFIELD sofreu aquele acidente no palco, com fogo e graves danos, um filme talvez marcasse que sim, a coisa foi séria mesmo. Erros de gravação e takes em cima do Corvette mostraram que a cena não foi tão bem produzida, mas ela passou o que precisava. VINCE para sempre será um eterno babaca por ter caído na estrada naquele estado, e a pena e tudo o que ele “sofreu”, de fato, nos tempos de hoje, não teria sido tão leve. Nada justifica.

Tivemos alguns deslizes bobos ao tratarmos dos rapazes do HANOI ROCKS e até do próprio MÖTLEY CRÜE, mas para o filme seguir, ainda mais depressa como seguiu, tudo bem. Exaltação máxima a MIKE MARS, que no filme, ali sendo representado (e muito bem), ficou claro que ele de fato se mantém de pé por ser alguém que sabia o que buscava, chegar aonde chegou e conviver com tamanha dor, e ainda assim estar no palco. Ver o MÖTLEY CRÜE pendurando as chuteiras naquele “último” show, já vale só pelos gemidos do ator, quem dirá pela dor real do cara. E por último e talvez o mais importante, NIKKY SIXX, a figura que uniu tudo isso e que se não fosse por ele, nunca teríamos o MÖTLEY CRÜE. Querendo ou não, a banda foi um espelho do que eles viveram, mas cá entre nós, aquela esbórnia toda foi vivida por muitas bandas. E não deveria ser tratada como algo tão fenomenal, até porque SIXX por si só “morreu”, não é assim tão durão como o filme, e até fãs da banda, acham que ele é. LEE caía mais do que ficava de pé, VINCE tinha uma vida destroçada fora da banda e dos palcos, e MARS tentava, como sempre, ficar de pé.

O MÖTLEY CRÜE sempre foi tratado como uma fortaleza da vida louca do rock n’ roll, e não, eles não são isso. VINCE chegou como pode ao fim da banda, visualmente parecia que tinha engolido a lua, e sua voz estava em frangalhos (mas a voz dele, nunca foi lá uma grande obra da natureza, mas para o que banda queria, e o que eles passavam, era a junção perfeita). LEE hoje em dia mal consegue ter uma vida decente perto da sua família, e os escândalos com atrizes pornô e até casamentos ou envolvimentos com tais, não são coisas únicas da banda. A passagem de CORABI, era uma coisa que merecia um capítulo todo em uma série, para falar disso e daquele disco (para uns é aceitável e para outros é sofrível). A perda de VINCE NEIL, se tratando da filha, daria outro capítulo de uma série, seria pesado, triste e mostraria o lado real dos caras, que o filme não conseguiu. SIXX, como conheceu seu pai e seu meio irmão, pesado também, renderia outro capítulo só para isso, outro só para sua infância. Os “outros caras”, no filme, mal foram apresentados. MARS foi dito apenas como um alienígena, o que é ridículo, ele é o mais humano da trupe. LEE flertou entre ser engraçado, lunático e um eterno apaixonado por tudo, pela vida, pela banda, pela estrada, pelas drogas e um balaio de garotas, isso, renderia mais um capítulo. Preciso dizer isso de novo?

A ascensão da banda, o auge do grupo, as gravações dos discos, as groupies, visualmente tudo muito bem feito, mas que correu depressa. O que foi aquela cena das datas passando “correndo” na tela? Aquilo por si só mostra que o filme buscava apenas existir. Se o MÖTLEY CRÜE achava que ia chocar, com um filme que é um travesti de ROCK OF AGES, sem as cantorias bestas, errou feio. E olha, eu gostei muito do filme, só acho que tudo isso renderia bem mais coisas, imagina para um leigo sobre o rock n’ roll, imagina então alguém pegar o filme para ver, com um balde de pipoca e achando que vai mostrar talvez um novo SPINAL TAP, longe disso. A “bateria montanha-russa”, ao fundo, mal deu para ver, quem vai perceber o que LEE fez tantos anos, com aquele detalhamento esdrúxulo disso? Nossa, ele girou com as baquetas na mão no filme, mas sabemos que não era apenas isso. O legado da banda, as histórias das ruas, as festas que eles deram, as turnês e viagens pelo mundo, e nem vou falar de tocarem ou estarem com centenas de ícones do meio, tudo isso ficou vago, faltou, faltou muita coisa.

O filme se mostrou bem carregado nas histórias engraçadas da banda, as porcarias feitas em hotéis e destruição por onde passavam. Acertou bem em mostrar muito dos clubes de strippers, mas errou em não mostrar mais a banda fora dos palcos, os caras em si, as motos, a formação das famílias, mais bastidores dos shows, ensaios, o acordo com o Jack Daniel’s, o que se pede em uma biografia, o por de trás das cortinas. O filme apenas tentou não decepcionar os fãs da banda, se era um filme do grupo que eles queriam, eles ganharam. Mas o MÖTLEY CRÜE ficou mais com cara de garotos buscando a selvageria da vida a todo custo. O vocalista agredido no primeiro show. Outro amarrado e socado por um produtor. Brigas com uma mãe no Natal (nossa, que cara perverso) e do lado de cá, fica a pergunta? Que tipo de fã devoto segue a banda? E volto a dizer, acho a banda muito, mas muito mal compreendida, lá fora eles são enormes, aqui, brigam para ter mais atenção que o DEF LEPPARD e se for para o lado das meninas, o POISON os coloca no limbo. E não, o CRÜE é gigantesco e merecia muito mais! Eles não foram uma caricatura do slogan de “sexo, drogas, maquiagem e rock n’ roll”, eles são muito mais do que isso, e eu acho que os fãs da banda sabem, mas o público como um todo, nunca vai saber.

O lado legal disso é que temos o MÖTLEY CRÜE em uma das mais conceituadas e buscadas fontes de vídeo e áudio do mundo hoje em dia! Seria ótimo se tivéssemos um filme dos RAMONES, do STONES, GUNS N’ ROSES e do SANTANA, talvez fosse uma forma de trazer para milhões de pessoas, mais dessas lendas, que estão ficando cada vez mais presa num nicho, que querendo ou não, está agonizando. Quem vai ser a banda de rock n’ roll que daqui 30 anos vai conseguir lotar um estádio com 50 mil pessoas? A sua banda, você? Ou restantes de bandas, que os próprios consumidores do meio ficam sempre colocando na lama. O meio está desunido, fraco, e o MÖTLEY CRÜE buscou respiro de maneira brilhante, uma vitrine sem precedentes para uma banda de rock n’ roll, mas eu acho que foram com sede demais ao pote.

Se tivéssemos uma série, se todos os dramas, confusões e o que o filme já mostrou, fossem abordados com mais calma, mais detalhe e deixando tudo ainda mais rico, o CRÜE teria uma das mais aclamadas séries da plataforma. E se um garoto da minha rua, que anda ouvindo o que sabemos que escutam, pudesse vestir uma camiseta do MÖTLEY CRÜE, “aquela banda da série, quero muito uma segunda temporada”, eu ficaria muito satisfeito. Mas o MÖTLEY CRÜE trouxe um filme que logo vai ficar jogado em algum lugar, vai respirar fundo ainda usando a plataforma da NETFLIX, mas RUNAWAYS e CBGB, são filmes que quase ninguém fala hoje. E infelizmente, é o mesmo destino que o filme da banda satânica, que nunca foi satânica, vai ter.

por Rudson Xaulin

Fonte: Rudson Xaulin

Sobre Rock Gaúcho 2355 Artigos
O portal Rock Gaúcho está há 15 anos levando o que há de melhor do rock feito no sul do Brasil para todo o mundo através da Web! Siga-nos em nossas redes sociais e fique por dentro de tudo que acontece por aqui!

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*


Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.