Titãs vem a Porto Alegre com turnê do álbum “Cabeça Dinossauro”

Cabeça Dinossauro é um marco na história dos Titãs e do rock brasileiro. Lançado em junho de 1986, foi um soco no estômago da hipocrisia com suas letras contundentes. O álbum, que marcava a estreia da parceria da banda com o produtor Liminha, pela primeira vez traduzia no vinil a pegada que a banda tinha ao vivo. Os Titãs puderam sentir a força do LP já no show de estreia no Projeto SP, quando o público cantou todas as músicas, numa época em que as rádios ainda se recusavam a tocar o repertório ousado do disco. O álbum já tinha garantido o primeiro disco de ouro dos Titãs, quando as emissoras finalmente se renderam. Além de Aa Uu, O Quê, Homem Primata, Família e Polícia, algumas rádios se davam ao luxo de pagar multa para tocar Bichos Escrotos, que tinha a radiodifusão proibida pela censura. Cabeça Dinossauro bateu a marca das 300 mil cópias vendidas e caiu nas graças da crítica. O disco ficou no topo das principais listas dos melhores daquele ano e até hoje é apontado com um dos mais importantes da história do rock brasileiro.

As canções de Cabeça Dinossauro, influenciadas principalmente pelo punk rock, mas com pitadas de reggae e funk, traziam letras corrosivas e irônicas, com as quais se identificaram milhares de fãs num momento em que o Brasil sepultava definitivamente os demônios da ditadura militar. Muitas delas tornaram-se hinos da rebeldia e da indignação de toda uma geração.

Agora, em  2012, ano em que celebram 30 anos de carreira, os Titãs iniciam as comemorações com uma reedição do histórico show Cabeça Dinossauro, em que tocam todas as músicas deste que é um de seus mais  emblemáticos e reconhecidos trabalhos, com os arranjos originais e na sequência em que foram editadas no disco. No roteiro do show estão Cabeça Dinossauro, Aa Uu, Igreja, Polícia, Estado Violência, A Face do Destruidor, Porrada, Tô Cansado, Bichos Escrotos, Família, Homem Primata, Dívidas e O Quê. A apresentação conta ainda com outras músicas que vieram antes e depois desse grande álbum, mas que mantém o mesmo espírito roqueiro, aguerrido  e irônico, sempre com a marca registrada dos Titãs: música pulsante com  letras  fortes, diretas, que  questionam  e fazem pensar.

Ficha técnica:
Branco Mello (voz e baixo)
Paulo Miklos (voz e guitarra)
Sérgio Britto (voz, teclado e baixo)
Tony Bellotto (guitarra)
Músico convidado: Mario Fabre (bateria)

Sobre o disco:

Em junho de 1986, no auge do rock brasileiro, saía do forno o terceiro disco dos Titãs. Cabeça dinossauro chegava às lojas e rádios provocando uma certa desconfiança. Vinha no rastro de dois LPs (“Titãs” e “Televisão”) que até emplacaram alguns sucessos, mas não definiram uma cara própria para a banda. O octeto, de visual esquisito, cinco vocalistas e uma formação atípica para rock’n’roll, enfrentava resistência fora dos muros de São Paulo. E, pior, o disco ganhava as ruas sete meses depois da controvertida prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por porte de heroína.

Bastaram 13 petardos e alguns meses para Cabeça demolir qualquer dúvida, virar referência na música brasileira e entrar para a história como o melhor disco do rock nacional de todos os tempos. Título, aliás, certificado em 1997, numa eleição da revista “Bizz” com dezenas de especialistas. Onze faixas estouraram, inclusive Bichos escrotos, vetada pela Censura “para radiodifusão e execução pública”, o que não foi suficiente para impedir as rádios de a tocarem à exaustão.

Agora, no ano em que os Titãs comemoram 30 anos de carreira, Cabeça dinossauro ganha uma reedição de luxo, inédita na história do rock: o disco original foi remasterizado e vem acompanhado de um segundo CD, com a demo tape que originou o LP. O disco clássico, gravado em abril no concorrido estúdio carioca Nas Nuvens, foi a primeira das bem-sucedidas parcerias da banda com o produtor Liminha. Já a demo foi registrada no fim de fevereiro, em apenas dois dias no Estúdio Mosh, em São Paulo. O CD 2, com as gravações antes de serem lapidadas, é uma joia rara para os fãs e conta a história de um LP que trazia uma unidade sonora e conceitual poucas vezes alcançada com tanta precisão. Mostra também que os Titãs já pegaram a ponte aérea rumo ao Rio com o álbum muito bem amarrado: das 13 músicas originais, 12 emplacaram e ganharam as ranhuras do vinil. A única descartada, Vai pra rua (Arnaldo Antunes e Paulo Miklos), cantada por Arnaldo, só agora vem à tona nesse registro inédito. Ela acabou substituída por Porrada, que não estava na demo. Com letra incisiva e arranjo forte, Porrada era um soco no estômago, mais potente, prioridade dos Titãs quando entraram no estúdio carioca.

É saboroso ver, aliás, como potência já era uma característica da demo. Igreja original traz um Nando Reis demoníaco, cantando no limite da agressividade e com direito a reza da primeira metade do Pai Nosso. Na versão consagrada continua intensa, mas a voz um pouco menos caótica. As duas gravações de Polícia soam parecidas, mas a que estourou nas rádios é mais afiada, com backing vocals rasgados e Sérgio Britto numa de suas interpretações mais vigorosas nos Titãs.

Bichos escrotos é outro retrato da evolução entre os dois registros. Antes com um tempero bem funk e suingado, ficou crua e ardente depois. Ganhou densidade e a apoteótica performance de Miklos a tornou o centro nervoso do disco. A preocupação em eliminar o ranço pop dos álbuns anteriores e dar personalidade a Cabeça foi trabalhada cirurgicamente pelos Titãs, por Liminha e por Peninha Schmidt, co-produtor do LP. O coro new wave que costurava a primeira versão de AA UU foi deixado de lado. Homem primata descartou o “uga buga” entoado no fim, mas acrescentou as pitadas de castanholas que ficaram eternizadas, na participação do percussionista Repolho.

Dinamites como A face do destruidor, Cabeça dinossauro, Estado violência, Tô cansado e Dívidas sofreram sutis alterações, apenas para aparar arestas. Já Família e O que, essas, sim, mereceram roupa nova. A primeira, um reggae mais pesado e arrastado, ganhou balanço e um andamento mais rápido. Em compensação, os versos do final (“padres e madres e freis/ escolas…”), que faziam um elo entre as instituições – canções – família e igreja, não entraram na gravação final. O que sofreu uma guinada radical. Se na demo Arnaldo canta sobre uma marcação de baixo e teclado, com solos de Tony Bellotto ao fundo, na versão que virou sucesso a interferência de Liminha foi decisiva. Ele fundiu programação de bateria, scratches e guitarras para transformar a última faixa do disco num funk eletrônico.

O que não muda na versão comemorativa de Cabeça dinossauro é a capa e a contracapa, que traduzem visualmente o conceito do disco: “Expressão de um homem urrando” e “Cabeça grotesca” são esboços de Leonardo Da Vinci. E que agora fazem ainda mais sentido: a demo não deixa de ser um esboço do que se tornaria um dos maiores clássicos do rock.
 
Oito curiosidades sobre Cabeça Dinossauro:

– O repertório do disco foi todo feito alguns meses antes da gravação da demo tape. A exceção era Bichos escrotos, composta em 1982 e já tocada pela banda desde os primeiros shows. O refrão original tinha um verso a mais: “Oncinha pintada/ Zebrinha listrada/ Coelhinho peludo/ Vaquinha mococa/ Vão se foder!”. Pouco antes de gravar a demo, a vaquinha mococa foi pro brejo.

–  A base de A face do destruidor foi gravada ao contrário, daí o som sujo e caótico. A velocíssima música, de 14 versos e cantada duas vezes por Paulo Miklos em 34 segundos, fazia o cantor terminar cada take quase sem ar.

– Charles Gavin estreou como compositor dos Titãs com Estado violência, que escreveu durante os 26 dias que Arnaldo amargou na cadeia (Bellotto foi liberado no dia seguinte). Tratava-se de uma letra nova para uma canção antiga. A melodia era a mesma de “O homem palestino”, que fez quando ainda tocava no Ira! e jamais gravada.

– AA UU foi a música de trabalho de Cabeça dinossauro. O clipe, lançado no “Fantástico”, teve direção de Boninho.

– Igreja por pouco não ficou de fora do repertório. Arnaldo Antunes achava a música desrespeitosa e era contra sua gravação. Foi voto vencido, mas ao longo da turnê de Cabeça, assim que a banda iniciava o punk rock, Arnaldo deixava o palco, num protesto silencioso.

– Assim que Sérgio Britto começou a botar a voz em Polícia, apareceu no estúdio Evandro Mesquita, que monopolizou a atenção de Liminha. Indignado com a falta de atenção, ele começou a cantar irritado a música-protesto, sem tirar os olhos do bate-papo animado da dupla. Esse primeiro take ficou tão explosivo que foi direto para o disco, sem retoques.

– Foi difícil estampar os desenhos de Leonardo Da Vinci na capa do LP. Na época, as gravadoras diziam que disco sem foto da banda estava fadado ao fracasso. Numa visita ao estúdio de André Midani, então presidente da WEA, os Titãs aproveitaram e mostraram a ideia concebida por Britto, ex-estudante de Belas Artes. Midani olhou em silêncio durante alguns segundos e decretou: “Vai ficar bonito”.

– Embora empolgado com Cabeça dinossauro, Tony Bellotto achava que o público não entenderia seu conceito e que os Titãs jamais ganhariam um disco de ouro (na época, 100 mil cópias). Branco Mello, confiante, propôs uma aposta: se o LP atingisse a marca, Bellotto pagaria uma garrafa de Jack Daniel’s. Em seis meses Cabeça bateu as 100 mil cópias, fechou o ano seguinte com 250 mil (disco de platina) e Branco bebeu feliz seu troféu.

Hérica Marmo e Luiz André Alzer (autores da biografia “A vida até parece uma festa – Toda a história dos Titãs”)

Serviço:
Titãs em Cabeça Dinossauro – 30 anos
Dia 6 de junho, 23h
Pepsi on Stage – Av Severo Dulius, 1995
Ingressos: R$ 50,00 pista / R$ 60,00 área vip / R$ 80,00 mezanino
Lote Promocional: R$ 40,00 (500 primeiros ingressos)
Ponto de venda: Lojas Multisom da Andradas, Iguatemi, Praia de Belas Shopping e BarraShoppingSul

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